2016 Resenhas Rock

Glenn Hughes – Resonate (2016)

Com mais um ótimo disco solo, ex-Deep Purple volta ao hard rock

Por Gabriel Sacramento

Quando se fala em Deep Purple e sobre a melhor fase da banda, a resposta é quase sempre unânime. A melhor fase é a que envolve Richie Blackmore, Ian Gillan e Roger Glover, ou seja, a que gravou, entre outros álbuns, o Machine Head (1972). Pouquíssimos vão dizer – como este que vos digita – que a melhor fase da banda foi a fase MKIII, que tinha nomes como David Coverdale e Glenn Hughes. Com esse line-up, a banda gravou Burn (1974), que foi um disco importantíssimo para o rock britânico setentista.

Dessa fase MKIII, um dos egressos foi o baixista/vocalista Glenn Hughes. Hughes já demonstrava um talento impressionante ao dividir os vocais com Coverdale enquanto tocava baixo, com uma voz potente, aguda e cheia de vigor. Depois de superar alguns problemas com drogas, ele conseguiu estabelecer uma ótima carreira solo para desenvolver e expor esse talento. A carreira rendeu excelentes discos na década passada como Songs in The Key of Rock (2003) – sim, uma referência ao álbum do Stevie Wonder, que é influência para o Glenn – e Music for The Divine (2006).

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Seu novo disco trazia a promessa de ser o mais pesado em anos, visto que nesses discos que acabei de mencionar, Glenn abria mão do peso para flertar com funk, soul e outros estilos. Resonate realmente é mais bruto, agressivo, mas é perfeitamente formulado e mostra um artista supermaduro no auge da sua carreira. Sim, no auge. Depois de fazer sucesso no Deep Purple, Hughes conseguiu desenvolver um trabalho solo consistente, como poucos, e Resonate representa o ápice dos seus esforços.

Glenn trouxe onze músicas pesadas, que não dão tempo para os ouvintes respirarem. Perdemo-nos em meio a tantos riffs densos de guitarra, seus típicos e marcantes vocais, refrãos expressivos, embora não acessíveis, estruturas muito bem definidas, sem soar confuso. Hughes sabe situar os ouvintes em cada seção de cada música e entrega um conjunto coeso, consistente e bem preciso de ótimas canções como “Heavy”, “My Town” e “Flow”. Vale destacar que essas faixas citadas seguem uma linha mais pesada, mas que não é a única na qual o disco segue.

“When I Fall” é o mais próximo de balada que temos aqui. Com destaque para os violões macios tocados pelo próprio Hughes (que também toca baixo) e o onipresente órgão tocado pelo Lachy Doley. A faixa também apresenta vocais mais aveludados e um preenchimento maior de harmonias. “Long Time Gone” – com bateria do Chad Smith (do Red Hot Chili Peppers) – também parece ser uma balada no início, mas depois desbanca no velho hard rock. “Landmines” vem com uma guitarra que lembra o estilo funkeado de tocar de Richie Kotzen e uma pegada que remete aos trabalhos anteriores de Hughes. No entanto, esse não foi o foco do ex-Purple no resto do álbum. Na maioria das faixas, ele soa mais voltado para o hard rock cadenciado, moderno, cheio de energia e peso. Portanto, baladas e canções mais suingadas são exceções em Resonate.

Esse fator é mais um bom argumento para atestar a qualidade do álbum. Tudo soa bem articulado, unido, apontando para uma direção específica, com competência de sobra.

A banda que acompanha Hughes é excelente: Søren Andersen é o cara das guitarras pesadas que sustentam as canções com os riffs afiados, mas também foi o cara que mixou e deixou tudo precisamente seco – o que favorece o peso. O órgão e teclados são tocados por Lachy Doley e são absurdamente bem colocados no meio das canções, chegando a lembrar o trabalho do mestre Jon Lord no Deep Purple. Repare como o instrumento rouba a cena, mesmo não necessariamente estando na linha de frente das faixas, com arranjos lindos que acrescentam muito ao conjunto. Chad Smith toca bateria na faixa de abertura e na última. Sua performance é boa, não é sensacional, mas não fica devendo em nada comparado com a performance de Pontus Enborg, que assume o kit no resto do álbum.

E o próprio Glenn tocou o baixo, violão, participou da produção e da mix também. Sua performance vocal é sempre ótima. Mesmo sua voz estando mais cansada e limitada, ele se mostra ciente dos limites e indo bem até onde pode. Se for fã das qualidades vocais do cara, fique tranquilo: suas características e seus agudos agressivos estão aqui. Hughes também impressiona no baixo, sabendo colocar o instrumento perfeitamente nos arranjos, com frases bonitas, mas sem abrir mão ou negligenciar o peso grave.

Glenn Hughes nos mostra com seu novo trabalho que ele está longe de nos decepcionar. Seja a carreira solo ou os trabalhos em parceria, como o Black Country Communion, Hughes está em ótima forma na carreira e consegue manter um padrão de excelência admirável em seus discos. Sua ousadia e atitude estão presentes e ele mantém a sua identidade. Seu novo disco também expõe que ele é, sim, um dos destaques daquela geração britânica dos anos 60/70 que permanece relevante até hoje – sem ficar só colhendo frutos da banda famosa da qual foi membro –, mesmo depois de passar por tanta coisa na vida e na carreira.

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1 comentário em “Glenn Hughes – Resonate (2016)

  1. Pingback: Deep Purple – InFinite (2017) | Escuta Essa!

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