Guns N’ Roses – Appetite For Destruction faz 30 anos

A história do álbum de estreia mais vendido do rock

Por Gabriel Sacramento

Em meados dos anos 80, cidades dos Estados Unidos como Los Angeles e Nova Iorque exportavam bandas que buscavam uma sonoridade emergente e visual extravagante: era o glam rock, estilo ao qual pertenciam bandas como Bon Jovi, Mötley Crue, Poison e Ratt, que fizeram estrondoso sucesso naquela década – principalmente com o surgimento da MTV.

Da mesma cena em Los Angeles, surgiram duas bandas chamadas L. A. Guns e Hollywood Rose, ambas até então desconhecidas, mas com algumas composições prontas e ideias a serem trabalhadas. Em 1985, as bandas se fundiram para formar um único grupo e, depois de algumas substituições, chegaram a um grupo chamado Guns N’ Roses, com Axl Rose, Izzy Stradlin, Slash, Duff McKagan e Steven Adler.

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Cinco jovens de personalidades fortes, hábitos difíceis – alto consumo de drogas, sexo desenfreado e bebidas –, mas com um desejo de fazer música pesada com qualidade. O grupo chamou a atenção de uma gravadora grande na época, a Geffen Records, que decidiu investir no grupo, conseguindo inclusive um bom produtor – Mike Clink – para o primeiro disco. Existem histórias que afirmam que até mesmo Paul Stanley (do Kiss) teria se interessado pela produção do álbum, mas não se deu bem com o grupo.

O som do quinteto trazia uma pegada hard rock forte, visceral e caracterizada por uma crueza marcante. As influências eram nítidas: Aerosmith, AC/DC, Kiss, entre outras. A banda queria ser ainda mais pesada que as bandas de glam, focando mais no peso e na solidez do som do que na imagem e nas baladas. E foram esses os ingredientes de Appetite For Destruction, o primeiro disco do grupo que levou o Guns N’ Roses, até hoje uma das bandas mais populares do rock americano, ao sucesso absoluto no fim da década de 1980. Mesma década em que despontava o Iron Maiden na Inglaterra, o Metallica e outras bandas do thrash metal na Califórnia, Van Halen e todas essas bandas do movimento glam.

O rock californiano, no entanto, precisava de ainda mais atitude. O Guns trouxe isso.

Destruição em disco

A banda começou a gravar o álbum no Rumbo Studios em janeiro de 1987, com uma bagatela de R$ 370 mil, o que era muito para um disco de estreia naquela época. Foram usados equipamentos antigos, buscando um som dos anos 60 e 70.

“Welcome To The Jungle” começa mostrando a força e organicidade do quinteto, com riffs afiados, uma voz precisa e elementos marcantes que são impossíveis de esquecer. Axl Rose escreveu a letra da faixa enquanto visitava um amigo em Seattle, e ela versa sobre alguém que chega em Nova Iorque, desacostumado com o ritmo de uma cidade grande. A banda começou a desenvolvê-la, quando Axl, em um ensaio, lembrou de um riff que Slash tinha composto. Em três horas, a música estava pronta.

“It’s So Easy” traz um andamento cadenciado, divisões bem feitas de guitarras e um vocal mais grave de Axl. Mostra que nem sempre é com agudos e gritos que a banda se sustenta, mas com elementos mais moderados, mantendo os seus pontos positivos intactos: as guitarras, o entrosamento entre a banda e a capacidade de tornar passagens simples memoráveis. “Night Train” e “Out Ta Get Me” seguem com a cadência e groove da anterior, lembrando o Kiss em muitos momentos. Esta fala sobre a vida de Axl e sua dificuldade de seguir as regras quando mais jovem. “Mr. Brownstone” é a música que se usa para argumentar que Duff e Adler estavam entrosadíssimos na cozinha da banda. A faixa é cheia de groove entre os instrumentos e peso distorcido também. Fala sobre os problemas dos membros da banda com heroína.

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A queridinha dos fãs – “Paradise City” – possui um solo icônico e um refrão que é quase um hino do rock. Foi escrita em uma vã, quando a banda voltava de São Francisco. O processo foi parecido com a composição de outro clássico do álbum: “Sweet Child o’ Mine”. Na primeira, Izzy e Duff começaram tocando algo, então Axl começou a cantar o verso do refrão; já em “Sweet…”, Slash estava tocando um exercício de guitarra em um andar do prédio onde estavam. Axl se encontrava no andar acima escrevendo ideias sobre esse riff que ele tocava. O tal exercício acabou se tornando o inesquecível riff que abre a faixa, considerado bobo pelo Slash até hoje. Mais próximo do final, temos a banda com o peso e o vigor prometidos: “You’re Crazy” mostra o Guns pisando no acelerador, com energia e agressividade de sobra. “Anything Goes” e “Rocket Queen” mantêm a mesma pegada intensa.

Ao unir as irreverências e o aspecto festeiro do hard rock californiano com a qualidade técnica e consistência dos riffs e solos, o grupo deu um passo enorme rumo à eternização no mundo do rock e da música. Axl Rose, que na época não tinha se mostrado um exímio cantor, impressionou com uma capacidade absurda de alcançar notas agudas, com agressividade, acrescentando sujeira e peso às faixas. O cantor era perfeccionista com seus vocais: gostava de gravar verso por verso com muito cuidado, tentando diferentes formas de se expressar. Sua voz não é linear, mas ele explora diversas nuances, enriquecendo as interpretações. Slash também era perfeccionista com seus solos, o que o levou a gastar horas com o produtor Mike Clink para conseguir as melhores partes de guitarra. Duff e Adler formam uma cozinha pesada e precisa, que fornece base para Izzy e Slash nas guitarras e Axl nos vocais.

Ou seja, além de toda a imagem de bad boys associada a eles, juntos eram uma banda muito boa e muito entrosada. Appetite For Destruction é sobretudo um rock gostoso, para se divertir, no qual podemos ouvir com clareza cada instrumento sendo muito bem executado e contribuindo para o resultado final.

Legado

O disco estreou na posição 182 na Billboard, só conseguindo atingir o topo depois que a banda se mostrou poderosa ao vivo e com clipes de faixas como “Welcome To The Jungle” e “Paradise City”. Hoje, estima-se que o disco vendeu mais de 30 milhões de cópias, sendo um dos álbuns mais vendidos da história e o disco de estreia mais bem sucedido comercialmente.

Pode-se dizer que parte do sucesso do álbum veio dos seus clipes, que eram a diversão de muita gente na ascensão da MTV nos anos 80. Também porque levantava a bandeira – junto com a imagem da banda – do “sexo, drogas e rock’n’roll”, o que na época era disseminado, devido, inclusive, à conjuntura social em que os americanos viviam, com a crise da AIDS e crise política. Mas não se pode negar que a banda conquistou sucesso pelo talento dos músicos, entrosamento, capacidade de fazer um som nervoso, que unia punk, blues e alguma coisa do metal, de uma forma que os destacavam das glam bands que infestavam a Califórnia.

Infelizmente, essa unidade do grupo começaria a ruir na década seguinte, e depois de problemas e brigas internas o grupo encerraria suas atividades. Mas o legado foi estabelecido. Ninguém jamais esqueceria – e realmente, ninguém esqueceu – do álbum de estreia que fez tanto barulho (literalmente), como poucos fizeram na história do rock.

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