2017 Metal Resenhas Rock

Pain Of Salvation – In The Passing Light Of Day (2017)

Um drama hospitalar dá origem ao disco mais pesado, difícil e dramático já concebido por Daniel Gildenlöw

Por Lucas Scaliza

Faz seis anos desde que a banda sueca Pain of Salvation lançou seu último trabalho inédito, Road Salt Two (2011). A banda não se manteve parada nesse tempo todo: fizeram turnês tocando material antigo e até lançaram um ótimo segundo álbum acústico há três anos (Falling Home), mas sentíamos falta do senso distorcido de beleza de Daniel Gildenlöw, o vocalista, guitarrista, principal compositor e letrista do grupo, que faz do PoS uma das bandas mais interessantes do metal progressivo europeu.

In The Passing Light Of Day é exatamente o que Gildenlöw disse que seria: mais pesado, complexo, duro e cheio de contrastes. É também um álbum difícil, sem a polidez da produção dos álbuns mais recentes e voltando com tudo para uma estrutura de composição que era muito mais presente nos três primeiros álbuns do PoS, mesclando faixas mais fluentes com outras cheias de contrastes de dinâmica, ternura e raiva, tudo permeado de mudanças de andamento e ritmos quebrados. A produção de Daniel Bergstrand deu timbres secos aos instrumentos e tirou do teclado o papel de instrumento que poderia criar uma cama, amaciando o som. As guitarras de sete cordas soam encorpadas nos registros mais graves e mais estridentes nos agudos, um contraste que é tanto a cara da banda como um certo descuido (desde sempre) com a timbragem. In The Passing Light Of Day é o Pain of Salvation mais cru e visceral desde The Perfect Element (2000), como atestam músicas como “Reasons” e a excelente “If This Is The End”.

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Baseado no tempo em que Gildenlöw permaneceu hospitalizado em 2013 por quase seis meses após ser infectado por uma bactéria carnívora nas costas. A princípio, não era um assunto que ele achasse que cairia bem a um novo disco da banda, que representaria uma nova fase e com uma ótima nova formação também, mas deve ter notado que o caso, quando olhado do ponto de vista reflexivo – pois ele foi submetido a uma cirurgia (que o deixou com um buraco nas costas), passou pelas piores dores que já havia sentido, podia ter morrido, podia ter ficado com graves sequelas que o impediriam de tocar, cantar, subir em árvores com os filhos ou fazer parkour – deve ter visto o potencial dramático do caso. E drama é algo que sempre esteve presente no PoS, seja contando como ainda garoto viveu seu segundo amor (Remedy Lane, 2002) ou criando uma história sobre uma suposta cunhada (Road Salt One, 2010).

A questão da polirritmia às vezes é tão “na sua cara” – em faixas como “Angels of Broken Wings”, toda a abertura de “On a Tuesday” e boas partes de “Full Throttle Tribe” – que fica claro como a banda usa a complexidade rítmica para representar um certo descompasso na vida de Gildelöw. Se fosse uma escultura, In The Passing Light Of Day seria uma dessas obras contemporâneas de metal retorcido cheio de arestas – algo bem dramático que, no caso do álbum, é uma síntese do progressivo com o metal alternativo.

Quando as primeiras composições novas começaram a surgir, Daniel Gildelöw disse que havia encontrado em seu novo guitarrista – Ragnar Zolberg, o loiro que raramente sorri – um parceiro que há tempos não tinha na banda. O primeiro single do trabalho, “Meaningless”, mostrava não só o poder metaleiro cru de sua guitarra, mas sua voz aguda, dando mais vida (e drama) ao refrão. Parecia que ele teria mais espaço individual do que o PoS jamais deu a outro membro. Contudo, embora os riffs arrastados de Zolberg façam a diferença, é Gildenlöw quem permanece no controle da situação do começo ao fim, seja sussurrando, narrando, vociferando ou criando uma melodia marcante. Ao vivo poderemos ter uma ideia melhor de como eles dividem suas funções e proeminências nas guitarras, por ora fica o destaque para o solo em “Angels of Broken Wings”. Apesar da falta de solos no álbum, contudo fãs de discos anteriores vão reparar em algumas melodias conhecidas sendo reaproveitadas aqui e acolá.

A faixa final, “The Passing Light Of Day”, coroa a tradição de grandes composições que fecham os álbuns do PoS (categoria que conta com “The Perfect Element”, “Beyond The Pale”, “Enter Rain” e “The Physics of Gridlock”). Com 15 minutos, a maior faixa já registrada em estúdio pela banda, ela até lembra a fase Road Salt até sua metade. Depois volta ao seu metal para um abrasivo e emocionante crescendo.

É bom ter o Pain of Salvation de volta. Embora seja difícil antever qualquer coisa que venha deles – tipo de som, temática, etc – qualquer ouvinte atento às bases do estilo, ou a estética fundamental, e não apenas à aparente, percebe que o grupo sueco sempre consegue permear sua obra com contrastes entre sofrimento e libertação, brutalidade e melodia, fluência e quebras temporais. O álbum se ajusta perfeitamente a isso tudo que faz parte do PoS, não importando muito se estão tocando metal ou rock setentista, disco ou rap, folk ou um épico progressivo. In The Passing Light Of Day não é o melhor trabalho que Gildenlöw já fez, mas com certeza supera os anteriores em carga dramática e visceralidade.

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4 comentários em “Pain Of Salvation – In The Passing Light Of Day (2017)

  1. Texto muito elucidativo. Conheci o Pain of Salvation há alguns anos por meio do Tungcast. Descobri que estavam lançando material novo ontem sem querer. Por estar mais habituado as músicas de Road Salt Two não tenho referencial para notar essa retomada às origens estruturais, mas fiquei com vontade de conhecer mais do trabalho da banda. Meaningless é a favorita, por enquanto, por tê-la ouvido mais, talvez.

    • Oi, Thales. Bem-vindo ao mundo do PoS então. E vá fundo na discografia, pois eles sempre mantiveram a mesma estética, mas não o mesmo som. E se eu puder dar um dica: atenção às letras. Daniel Gildenlow é ótimo com as palavras, seja no incrivelmente irônico é moderno “Scarsick”, no épico prog “BE” ou no autobiográfico “Remedy Lane”. E se puder ir a um show deles, vá. São muito bons, viscerais e gente boa. Tocam sempre em SP, por exemplo.

      Abraços!

      • Sim, numa primeira audição acabei por me ater bem mais a questões melódicas. No caos dos coletivos muitas letras se perdem. Vou adquirir estes três que você mencionou para começar. Com material novo então é certeza de retornarem a nosso país, ficarei no aguardo!

  2. Pingback: Astrid Swan – From The Bed And Beyond (2017) | Escuta Essa!

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