2017 Metal Resenhas

Sepultura – Machine Messiah (2017)

Sem abandonar o thrash, banda flui por escalas árabes, inclui teclados e liberta o monstro-cantor Derrick Green

Por Lucas Scaliza

Como toda boa banda, o Sepultura não ficou estanque em um estilo só. Como músico profissionais que provavelmente estão interessados em continuar desenvolvendo a própria musicalidade, seus discos se permitem absorver influências de outras bandas, outras gerações (passadas e contemporâneas). Afinal, por mais que 1987 e 1996 tenham sido grandes datas para o inovador thrash metal do grupo brasileiro, a música não para. Ela muda para continuar relevante – e isso não apaga o passado. Com o excelente Machine Messiah ouvimos não apenas o bom e velho Sepultura, mas o bom novo Sepultura na mesma medida.

O disco não tem uma única faixa descartável e não para de surpreender. Solos com influência de música nordestina e escala árabe, batuque que lembra maracatu e coco, presença de uma orquestra da Tunísia, e um clima de suspense e ameaça que deixa o ouvinte em constante estado de alerta. Tudo isso misturado ao potente thrash metal de riffs dissonantes e distorção saturada que já conhecemos do grupo.

sepultura_2017

A instrumental “Iceberg Dances” é cheia de nuances e uma das faixas mais interessantes que o grupo já compôs. Eloy Casagrande e Paulo Jr. fazem a cozinha rítmica perfeita para deixar Kisser à vontade para mostrar bons riffs e solos de guitarra e violão criativos, fugindo das “escalas metaleiras” (temos até um momento de batuque). Assim como a ótima introdução mais lenta e melódica “Machine Messiah”, “Sworn Oath” aposta na criação de um clima que enreda a composição. O teclado da composição realça a harmonia e dá mais corpo à música. A banda finaliza a faixa com um grande acorde, do tipo que não pareceria tão monumental sem a presença das teclas comandadas por Renato Zanuto.

“I Am The Enemy” talvez seja a única faixa mais conservadora e direta do disco, do tipo pesada e acelerada sem muitas nuances. “Resistant Parasites” parece seguir pelo mesmo caminho, mas novamente temos uma seção sinfônica e um solo com escala diferenciada para deixar claro que o Sepultura surpreende. E o jeitão nervoso e arrastado de “Silent Violence” e o vigor metaleiro desenfreado de “Vandals Nest” mostra quem sempre foram.  Ao longo do álbum, as vociferações de Derrick Green adquirem qualidades melódicas muito marcantes. Não lembro de outro álbum deles que ouvi e tão facilmente quis assobiar a melodia de voz.

Como sempre, as músicas seguem uma temática. Dessa vez, Andreas Kisser disse que a robotização da sociedade é o grande assunto do disco. Trabalham, assim, o conceito de um Deus Máquina que teria criado a humanidade. Porém, ela evoluiu tanto que chegou ao ponto de refutar esse deus, mais ou menos como acontece atualmente com o Deus metafísico de diversas religiões, sendo substituídos por outras crenças (na política, no Estado, no dinheiro, na ciência).

Derrick faz um ótimo trabalho emulando a voz dessa Máquina Messias e até canta mais limpo na excelente “Cyber God”. Embora muita gente ainda olhe com má vontade para seu trabalho dentro do Sepultura (uma falta de reconhecimento movida a implicância semelhante ao que aconteceu e ainda acontece com James LaBrie, do Dream Theater), Machine Messiah é a melhor oportunidade que o Sepultura deu ao americano de mostrar que não é apenas um cara capaz de cantar gutural e dividir o papel de frontman com o guitarrista. Dessa vez ele mostrou que é um cantor mesmo, explorando diversas técnicas diferentes e se expressando de uma maneira mais vasta. Embora seja meio galhofa, é muito legal a faixa bônus “Ultraseven No Uta” que a banda interpreta em versão heavy metal, com Derrick cantando em japonês. Trocando em miúdos, parece que o monstro-cantor saiu da jaula de vez.

O Sepultura chega ao 14º álbum da carreira mostrando que ainda querem explorar novos territórios sonoros sem deixar de repisar o velho thrash metal. Fazem isso tão bem e com tanta segurança que Machine Messiah fica um degrau acima dos últimos quatro discos do grupo. Entretanto, vale ressaltar que os últimos cinco discos de estúdios da banda provam que a pluralidade temática e sonora tem sido uma constante. Isso faz um bem danado para o metal mundial e para a discografia, só não vê o ouvinte que parou no tempo. Boa mesmo é a banda cuja discografia você olha e nota que nunca foram estanque.

sepultura_suecia

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1 comentário em “Sepultura – Machine Messiah (2017)

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