John Mayall – Talk About That (2017)

John Mayall mostra mais uma vez que sabe fazer blues como poucos

Por Gabriel Sacramento

O ícone do blues britânico John Mayall está com um novo trabalho. Mais um da carreira prolífica. O seu legado é indiscutível: liderou a banda que lançou alguns dos mais conhecidos guitarristas do Reino Unido – Mick Taylor, Mick Fleetwood, Peter Green e Eric Clapton são alguns dos nomes. Além de ter lançado em 1966 o disco que é considerado o início do blues rock (que seria “reinventado” por Jimi Hendrix um ano depois) e que influenciou diversas bandas importantes como Deep Purple e Led Zeppelin.

Outra coisa indiscutível é: Mayall domina completamente o blues. Desde muito novo, já foi exposto ao blues americano de artistas como Albert Ammons e Lead Belly. No seu novo álbum, Talk About That, ele deixa isso bem claro. O músico se mostra confortável fazendo aquilo que sempre fez durante a carreira, mas sem se restringir à fórmulas fáceis e engessadas. Mesmo que seja majoritariamente blues, percebemos o esforço do britânico em fazer algo interessante e dinâmico.

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A faixa-título abre o álbum com uma pegada mais dançante e um molho funky, realçado pelos slaps do baixo. Poderia ter soado melhor se a levada de bateria não fosse tão quadrada. “Hard Going Up” começa com riffs de blues entrecortados pelas notas do piano do Mayall. Mantém-se estável como um bom blues, mas sem soar cansativa. “The Devil Must Be Laughing” e “Cards on the Table” conta com o grande guitarrista do Eagles, Joe Walsh. As duas foram gravadas em um take. E o álbum todo foi finalizado em três dias apenas. Isso ocorreu porque Mayall queria captar um som “ao vivo”, que dá a ideia de algo mais espontâneo e improvisado.

“Gimme Some of That Gumbo” traz um ritmo diferenciado, com staccatos e acentos bem entrosados dos instrumentos. O piano de Mayall brilha como sempre. “Blue Midnight” lembra o som de JJ Cale, que tanto tem influenciado Eric Clapton ultimamente. “Across The County Line” mostra o britânico tentando variar, trazendo um pouco de um jazz clássico que lembra Ray Charles. “You Never Know” também possui uma veia jazzística, lembrando o som de Bob Dylan em Fallen Angels (2016).

Talk About That é um disco bem interessante de John Mayall justamente por buscar referências diferentes para tornar as canções diferentes. Mesmo sendo totalmente fluente na linguagem do blues, uma autoridade no uso das estruturas do gênero, o britânico preferiu experimentar com o jazz também, tendo o cuidado de não soar repetitivo demais.

Assim como Mike Zito em Make Blues Not War, John Mayall busca novas experiências com sua música sem variar muito o estilo. Não é um trabalho moderno e não tem intenção de ser. Mas também não é anacrônico, se apega ao aspecto atemporal que caracteriza o blues. Também não é o melhor trabalho da sua carreira e nem tem a intenção de ser, mas funciona como mais uma prova de que se alguém pode tocar blues com qualidade e sem decepcionar, esse alguém é John Mayall.

Além de tudo, é preciso reconhecer o legado do cantor, pianista e guitarrista. Por todo o seu esforço, por ter sido um pioneiro e ter trazido esses elementos americanos para a música do seu país. O blues foi a pedra fundamental da sua carreira, afinal, John Mayall como conhecemos não seria ninguém sem o blues. E o blues do Reino Unido também não seria ninguém sem ele.

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