2016 2017 Resenhas Trilha Sonora

Jackie – trilha sonora de Mica Levi (2016)

Trilha dramática e grave complementa a atuação de Natalie Portman

Por Gabriel Sacramento

Jackie é o novo filme do Pablo Larraín, chileno que também dirigiu Neruda (2016) e tem uma carreira relativamente nova em Hollywood. No novo filme, Larraín trabalha com o roteiro de Noah Oppenheim, escrito originalmente para a TV, mas que acabou nas telonas. O longa narra a história do assassinato de Jonh Kennedy, ex-presidente dos Estados Unidos, do ponto de vista da sua esposa, Jaqueline Kennedy – a mais famosa primeira dama que o país já teve, justamente por ter milhares de olhos voltados para ela no momento mais difícil da sua vida. O filme mostra o luto da esposa e sua luta para superá-lo, ao mesmo tempo em que tenta preparar um funeral digno para JFK. A base para o roteiro foi a entrevista concedida pela primeira dama ao jornalista Theodore White, publicada na revista Life.

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A trilha foi composta por Mica Levi, conhecida como Micachu. Levi é também parte da banda Micachu and The Shapes, um grupo de pop experimental. Esse é o seu segundo trabalho no cinema, sendo que o primeiro, Under the Skin (2013), era uma ficção científica.

No primeiro plano do filme, temos “Intro – Jackie”, a canção de abertura da trilha sonora e o fundo musical para a apresentação da personagem principal aos espectadores. A faixa é tensa, introduzindo um suspense inesperado alavancado pelas pausas dramáticas, que combinam com a dramaticidade de Natalie Portman em seu primeiro diálogo com o jornalista Theodore White, interpretado por Billy Crudup. Os instrumentos interrompem as pausas com cuidado, como em fade-in e aos poucos a faixa vai enchendo todo o espaço em nossas cabeças. Já a atriz se mostra fantástica em seu papel nos primeiros planos, se entregando completamente à personagem, reproduzindo com fidelidade até mesmo os trejeitos e o sotaque da primeira dama.

No desenrolar do filme, vemos as sequências de flashbacks, que entrecortam a entrevista da primeira dama. A maior parte do filme se passa nesses flashbacks, que são utilizados para contar e detalhar toda a história, bem como apresentar o porquê de toda a tensão da personagem no momento da entrevista.

E enquanto isso, Mica Levi vai nos apresentando suas músicas lentas e que não economizam em sensibilidade. Também funcionam perfeitamente para reforçar as emoções que o filme transmite. “Tears” surge com notas pesadas de piano, estabelecendo a melancolia logo após a cena da morte do presidente Kennedy. Esse senso de melancolia permanece implícito em todo o filme e no resto da trilha, porém vai ganhando formas diferentes de expressão. “Autopsy”, por exemplo, usa algumas notas de bateria, apenas para variar. As mesmas notas são usadas em “Graveyard” – que é, inclusive, a mais tensa do repertório, com melodias graves que parecem emboladas e profundas. O piano na faixa soa bem mais grave do que normalmente soaria e isso coopera com a sensação de tensão. Mais próximo do final, temos “Vanity”, com um instrumento de sopro introduzindo um pouco mais de cor ao arranjo escuro e grave do fundo. Na cena do sepultamento do presidente, “Burial” surge com tremolos agonizantes que vão do grave ao agudo, enquanto os personagens demonstram o desconforto de estarem ali, cumprindo a inevitável burocracia do funeral.

A melhor relação entre a trilha de Mica Levi e o filme se dá na cena em que Jackie e John desembarcam em Dallas, lugar onde ele seria assassinado por tiros à longa distância. No momento em que eles estão no avião se preparando para descer, Jackie esbanja confiança e até um pouco de soberba em seu olhar. Quando descem, são bem recebidos pelo público e pelos governantes locais. “Children” toca ao fundo, quase imperceptível. No meio da cena, o enquadramento se fecha no rosto de Jackie e o suspense toma conta do quadro: a faixa que antes tocava mais baixa ganha contornos mais graves e fica mais alta na mixagem. E então, aos poucos, a música vai funcionando como um foreshadowing – recurso que apresenta antes, através de detalhes implícitos, o que vai acontecer depois no desenrolar da narrativa. O suspense começa na música e desenvolve-se na sequência com os tiros acertando o presidente e encharcando a primeira dama de sangue em uma das cenas mais chocantes do longa.

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A fotografia usa bastante os planos fechados, captando de perto o rosto de Natalie Portman e suas expressões. Um dos motivos pelos quais sua performance é notável e brilhante, inclusive. A trilha se relaciona com isso no sentido de, assim como os closes, tentar extrair os pensamentos da personagem e expô-los em forma de música.

Além da trilha de Mica Levi, temos uma faixa especial. “Camelot”, cantada por Richard Burton, no musical homônimo que estreou em 1960, na Broadway. 60 é, aliás, a década em que Jackie se passa. Diz-se que a canção era uma das favoritas do presidente Kennedy e aparece duas vezes no roteiro: primeiro quando Jackie põe para tocar a vitrola enquanto passeia pela Casa Branca e no final, logo depois de finalizar a entrevista com uma citação ao musical. A faixa é solene e contrapõe-se ao resto da triha, encaminhando a trilha do filme à um final contemplativo. A solenidade com que a história termina nos tira um pouco do clima de luto da protagonista e foca-se no legado do ex-presidente. As memórias, quem ele foi e o que ele fez, tiveram grande importância e não podem ser deixados de lado pelo luto e pela tristeza. Isso é o que a faixa de Richard Burton transmite em contraste com o tom geral do filme.

A trilha de Mica Levi funciona muito bem em um filme que possui um tom e um humor o tempo inteiro. Quando quis mudar um pouco as coisas ou direcionar o espectador para outro lado, Larraín utilizou outra música, deixando claro que a trilha é bem encaixada no filme, mas é monotemática. Ou seja, ainda que seja adequada para o luto e para todo o desenrolar da narrativa, não seria adequado para outro contexto ou para ser analisada fora da ideia do filme.

A atuação de Natalie Portman por si só chama bastante a atenção, mas a trilha está sempre trabalhando com a situação da atriz e complementa sua ótima performance. Há apenas um momento em que a trilha antecipa o que estamos prestes a ver e participa ativamente na construção do roteiro (o caso do foreshadowing). No mais, ela apenas está lá para, em termos musicais, nos contar o que se passa na mente de uma Jackie inundada pelo luto e sem expectativa para o futuro.

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