2017 Indie MPB Nacional punk Resenhas Rock

Kiko Dinucci – Cortes Curtos (2017)

Uma sinfonia noiser para ouvintes faixa – ou tarja – preta

Por Lucas Scaliza

Em menos de 40 minutos, o guitarrista e compositor Kiko Dinucci desfila 15 composições intrincadas, entrecortadas, inquietas e realmente curtas. As letras da maioria são poemas-telegramas. A maior delas (de “A Morena do Facebook”), é uma estrofe única de 20 versos. E absolutamente todas as faixas são feitas para descer quadrado goela abaixo do ouvinte, como um daqueles comprimidos que parece que sempre vai entalar. As guitarras, a percussão e os sopros são de dar nos nervos, pervertendo toda e qualquer possibilidade de harmonia de fácil assimilação.

Cortes Curtos é, assim, um disco para ouvintes faixa-preta. Ou tarja-preta. E você pode baixar de graça no site dele.

kiko_dinucci_foto

Dinucci é parte fundamental da nova cena roqueira e alternativa da MPB. Com Metá Metá e uma série de outras colaborações no currículo, o novo trabalho solo parece a concretização de um projeto em que diversos estilos que sempre estiveram em seu DNA se unem e criam algo bastante arrojado. Nota-se, superficialmente, que o disco todo deve ter sido composto em duas camadas: uma é a da harmonia básica da música e a melodia das letras; a outra é o modus operandi de um Omar Rodríguez-López, que coloca sua guitarra a serviço do caos e da subversão de uma composição. E assim, Dinucci garante tanto um ritmo de uma São Paulo fragmentada quanto uma inegável pegada noiser, com toques de progressivo e regionalismo.

Assim como o Metá Metá, vamos chamar Cortes Curtos de rock de vanguarda, mas é bom deixar claro que é muito difícil categorizar o álbum. Gritos e distorções, acordes secos e ritmos carnavalescos acompanham cenas de uma metrópole em que morte, drogas, racismo e xenofobia convivem de maneira tão absurda que a desesperança chega a ser cômica (“No Vazio da Morte” e “A Gente Se Fode Bem Pra Caramba” são os melhores exemplos disso).

O próprio Kiko Dinucci diz que Cortes Curtos é como cinema. E realmente, Cortes Curtos, seja como telegrama ou crônica da vida atual em uma metrópole violenta e endurecida pelo concreto e pela falta de humanidade, guarda em si um sentimento de inadequação e dissonância entre as pessoas que lembra muito O Som Ao Redor, do diretor Kleber Mendonça Filho, e é um dos melhores trabalhos cinematográficos que o Brasil produziu nos últimos anos. O retrato estilhaçado e revelador que o filme faz de um pedacinho de Recife é muito próximo ao que Dinucci faz de São Paulo.

Se Kiko Dinucci não facilitou nossa audição nos últimos anos em nenhum de seus projetos, agora que está plenamente no controle da situação – isso é, não tem que compor suas partes de guitarra pensando em como agradar companheiros de banda ou os/as donos(as) dos projetos em que toca –, neste não seria diferente. Em pouco tempo é possível tomar contato com todo o seu filme em forma de som. Mas compreender a música que ele propõe tomará muito mais tempo e demandará muito mais paciência.

Mas vale a pena o desafio.

0 comentário em “Kiko Dinucci – Cortes Curtos (2017)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: