Frank Carter and The Rattlesnakes – Modern Ruin (2017)

A biografia sonora de Frank Carter

Por Gabriel Sacramento

O ex-vocalista do Gallows, Frank Carter, surgiu com mais um novo projeto, tentando se afastar um pouco mais do som de sua banda. Como membro do Gallows, Carter era uma especie de “porta-voz da insatisfação”, com críticas pesadas e contundentes, embasadas por um som nervoso e punk. Em 2011, ele surgiu com um grupo diferente, chamado Pure Love e se dizia “cansado de cantar o ódio”.

A mudança de visão e amadurecimento do artista permitiu a ele dar passos ainda maiores: o novo grupo leva o seu nome – Frank Carter & The Rattlesnakes -, como um projeto solo mesmo, e é bem mais leve que o Gallows e um tanto mais urgente que o Pure Love. Carter uniu com inteligência a experiência com os dois grupos, chegando a um meio termo sadio e consistente. O novo álbum chama-se Modern Ruin.

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O disco é todo coeso e funciona bem ao tentar nos apresentar esse híbrido das bandas de que Carter já fez parte. Mesmo que você não conheça nenhuma, sua experiência ouvindo Modern Ruin não será comprometida, visto que todas as faixas foram bem arrumadas para convencer os ouvintes de primeira viagem.

Tirando a faixa-título – com uma harmonia dissonante, tensa, obscura, que fornece a base para os vocais angustiados e raivosos, que alternam entre guturais e melodias -, as faixas de Modern Ruin são mais melódicas e acessíveis do que inclusive o primeiro álbum do grupo, Blossom (2015), e mesclam fúria e ternura com muita competência. As guitarras são sempre diretas, poucos riffs por faixa e riffs bem simples, que soam muito bem. (Fica claro também o ótimo trabalho na timbragem das seis cordas, ponto para a produção do Thomas Mitchener). Os vocais de Carter passeiam pelas bases pesadas com facilidade, obtendo espaço para escolhas melódicas grudentas e marcantes, mas que não sacrificam a atitude roqueira do som.

É um álbum tão alternativo e tão jeitoso com melodias envoltas em um peso semipunk, que me lembra o mais recente disco do Emarosa, que foi um destaque desse tipo de som no ano passado. O trabalho do Emarosa foi marcado pelo tom angustiado e quase depressivo, que se servia das melodias e da ótima interpretação de seu vocalista. Modern Ruin não é depressivo, mas também não é alto-astral. E assim como o Emarosa, os Rattlesnakes estão bem servidos com um ótimo vocalista que sabe se expressar, dar vida às letras e possui uma flexibilidade vocal admirável, perfeita para adaptar sua voz a situações e climas distintos.

A produção do álbum é do já citado Thomas Mitchener, que foi produtor, engenheiro, mixer e ainda tocou baixo no disco anterior do grupo. Thomas soube captar o desejo da banda e explorar o melhor de cada um para tornar a proposta algo convincente e crível. Ele também cooperou bem para que a banda soasse bem equilibrada, sem forçar nada demais, mantendo-os no limite do confortável enquanto navega pelas nuances, sem deixar isso prejudicar a fiabilidade do trabalho. Sem uma atitude revolucionária, nem um apelo exagerado à acessibilidade, Modern Ruin encontra-se em uma posição que deve agradar tanto os ouvintes mais comuns de rock alternativo, quanto os mais extremos.

O novo disco funciona bem como uma biografia sonora de Frank Carter. Podemos ouvir a energia punk dos seus primeiros lançamentos, bem como o domínio das melodias que ele vem desenvolvendo nos últimos anos. Mas o cantor se preocupou em unir apenas o melhor das fases da carreira em um álbum evolvente e cheio de identidade. Definitivamente, um dos melhores álbuns do semestre, sendo uma boa prova de como a galera do punk pode vir a apreciar e a explorar o poder de boas melodias.

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