2017 Diversos Jazz Resenhas

The Necks – Unfold (2017)

Cacofonia e mistério na terra do jazz e da música abstrata

Por Lucas Scaliza

A sonoridade de Unfold é curiosa. É para quem sente prazer texturas nas ondas do som que se propagam pela materialidade do espaço. Para quem se arrepia com o som de cacos de vidro sendo juntados; para quem curte dormir ao som da chuva; para quem nota o ritmo oculto produzido por um trem em marcha; para quem vê beleza na cacofonia da metrópole ou do hotel; e para quem aprecia os mistérios do jazz.

O jazz é minimalista e vai se revelando aos poucos, bem aos poucos, já que o trio de músicos australianos do The Necks se dão espaço de sobra. Com quatro faixas, a menor música de Unfold tem 15 minutos. A maior, quase 22. “Rise” dá espaço para o piano de Chris Abrahams e para a bateria de Tony Buck, enquanto o baixo de Lloyd Swanton reforce as nuances ambientais da composição. Em “Overhear”, Abrahams troca de teclas, preferindo improvisar no órgão Hammond. “Blue Mountain” aprofunda o mistério, conforme Abrahams volta ao piano e novamente temos notas longas de sintetizador soando ao fundo, como uma presença pinlfloydiana. Sem pressa, carregando um pouco mais nas tintas, a música enfim emerge. Ainda experimental, mas menos contaminada pelos ruídos ambientais. Uma transição linda de se ouvir.

the_necks_2017

“Timepiece” é a conclusão dessa jornada sonora. O jazz que era notório nas três primeiras faixas abre espaço para uma construção de paisagem sonora mais hermética e ambientação mais densa. O mistério volta, mas deixa o espaço urbano ou doméstico e nos joga numa selva ou aldeia. Elementos étnicos tomam conta da faixa (graças à percussão interessantíssima de Buck), e a inquietação fica cada vez mais intensa, como se um ritual estivesse em andamento ao seu redor. Seja forte!

Em Unfold temos um gênero musical – o jazz – sendo usado como elemento de ambiência, e a música ambiente dando forma ao jazz. É um experimento que busca testar os limites de ambos. No final das contas, o jazz acaba engolido e absorvido no mundo criado pelo trio australiano para Unfold, a 15ª vez em que o abstrato e o material colidem espetacularmente na discografia da banda.

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