2017 Diversos Eletronica Jazz Reggae Resenhas

Thievery Corporation – The Temple of I & I (2017)

Jukebox de influências, efusão de texturas, laboratório de experimentos

Por Gabriel Sacramento

Ninguém para Rob Garza e Eric Hilton. A dupla segue fazendo um trabalho musical irrepreensível, mixando diversas ideias de estilos diferentes e trazendo diversas culturas para conversarem entre si. Sim, o trabalho do duo é musical, mas também etnográfico: eles já mapearam diversas partes do mundo, com sons típicos de cada região, em uma demonstração de pluralidade e diversidade admirável. A música brasileira foi o ideal a ser atingido por eles no disco Saudade (2014), que explorou a bossa nova.

Tudo no som do Thievery Corporation – um nome excêntrico para uma banda excêntrica – é conectado por uma ênfase nas atmosferas das faixas e uma certa preocupação com ambientação. Cada elemento que a dupla cuidadosamente seleciona para preencher suas faixas tem uma função ativa no espectro sonoro e na maneira viajante como penetra em nossas cabeças. Parece ter algum fator especial que chama a atenção e nos intriga.

Depois de trabalhar com a bossa nova, o novo lançamento – intitulado The Temple of I & I – restringe-se (se é que posso usar essa palavra) ao dub, reggae e eletrônica. Mas não espere delimitação perfeitinha entre as fronteiras de cada influência. É tudo misturado mesmo, como em um laboratório, no qual um cientista aplica constantes, combina elementos e não sabe ao certo como ficará o resultado final. Eles ainda chamaram um monte de gente para cooperar e aí você já sabe: além do esperado e do toque dos produtores, temos o inevitável toque dos músicos convidados.

Thievery Corporation

Se o dub, que perpassa o som do Thievery Corporation desde que surgiram, poderia ser descrito como um reggae eletrônico, climático e ambiente, o som de The Temple of I & I pode se descrito como um reggae jazzista, digital, climático, espacial e viajante. Não há nada que se limite a referências temporais. O som deles é totalmente a frente do seu tempo: E isso se deve a um certo frescor futurista das canções, que parece ter a real pretensão de desconstruir os gêneros utilizados, enquanto cria novos. Como disse antes, não é tão bem definido, mas isso dá um charme interessante.

Temos faixas bem louconas, como “Thief Rockers” e a faixa-título, hip-hops oldschool (“Ghetto Matrix”, “Fight To Survive” – esta lembra The Prodigy), reggaes jamaicanos saudosos (“Strike The Root”, “True Sons of Zion”, “Drop Your Guns” e “Babylon Falling”), eletrônicos bem viajantes (“Time + Space”) e faixas mais jazzísticas (“Let The Chalice Blaze”). Boa parte do álbum remete ao reggae, mas não se limita a isso, possuindo uma liberdade para transitar entre todas essas diferentes referências, sem soar confuso. O álbum impressiona pelas diversas – e ótimas – texturas e timbres, que parecem deixar claro o esmero da dupla quanto à produção do disco e engrandecem o conceito sonoro do álbum. Destaco o som do baixo: pontual, grave e leve, aparece em primeiro plano, mas de uma forma que não apaga os outros instrumentos.

Com uma proposta inovadora e multifacetada, o Thievery Corporation ainda soa fiel à proposta estabelecida por toda sua carreira. O duo tem muita identidade e faz da pluralidade um dos fatores mais marcantes da sua arte. Eles conseguem elevar a música para além de limitações estilísticas/geográficas e unir o que há de mais expressivo em diversas sonoridades, podendo também alcançar diferentes públicos. Isso faz deles uma das duplas mais interessantes da atualidade, mas também uma das mais corajosas. Sem estilo definido, eles podem correr o risco de não ter um público definido – mesmo que a música deles chegue a diferentes públicos, podem não conquistar uma base forte de fãs. No entanto, álbum após álbum, percebemos que isso não é (nem um pouco) uma preocupação para Garza e Hilton.

The Temple of I & I é um álbum que demonstra que a única constância na carreira é a capacidade de não serem constantes, nem lineares. Ouça e prepare-se para uma das viagens mais malucas por mundos desconhecidos, guiados por dois caras dotados de um bom gosto e um senso revolucionário de musicalidade.

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2 comentários em “Thievery Corporation – The Temple of I & I (2017)

  1. Sou muito fã do TC. Na verdade, é até o show que mais tenho vontade de ir na vida. Essa mistura de eletrônica, dub reggae, jazz é única. Numa atmosfera meio lounge. Vou o escutar o “Temple” e volto pra dar o feedback.

  2. Pingback: Jesca Hoop – Memories Are Now (2017) | Escuta Essa!

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