Father John Misty – Pure Comedy (2017)

Extenso e intenso, novo álbum de Father John Misty comunica o quanto somos cúmplices da contemporaneidade

por brunochair

Em recente entrevista à Pitchfork, Father John Misty afirma que sente-se não apenas conivente com o atual contexto político, econômico, social e cultural americano. Ele vai um pouco mais além, e acredita ser cúmplice deste contexto, ainda que pensando de forma distinta do que está posto/está sendo posto. “As coisas são como são porque é assim que queremos que sejam em algum nível”, diz o músico americano, em determinado ponto da entrevista. Estes incômodos (ou boa parte deles) estão traduzidos em Pure Comedy, novo disco de Father John Misty.

O músico passa desta perspectiva romântica/real/idealizada/frustrada de I Love You, Honeybear para um algo mais extenso e mais intenso. Não apenas dissecar uma forma de relacionamento (do seu eu-lírico), mas sim milhões delas, em diferentes esferas e condições. Portanto, já vamos resumindo por aqui que Pure Comedy é um extenso e intenso tratado sobre a contemporaneidade. Há política, há economia, mas há também relacionamento entre o humano e tecnologia, há sarcasmo, há insignificância, caos (humano, urbano, cultural), niilismo. Está tudo ali, não tão bem diluído ou fragmentado, mas está.

Parece não estar tão fragmentado ou bem diluído porque, haja vista o disco ser extenso e intenso, suas letras desviam de um padrão de música pop – algumas são gigantes, poucas com refrão, e estão repletas de críticas, signos, ironias. E uma parte da crítica que promovemos ao disco está nisso: percebe-se um certo esforço muscular de Father John Misty e seu produtor (Jonathan Wilson) em fazer caber determinadas letras dentro da harmonia da música. Algumas canções não tem aquela ponte, aquela “liga”, aquele respiro necessário para pensar, apreciar as melodias. É tudo um grande baque, às vezes apresentando-se como uma exaustiva e caótica jornada.

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Sobre a musicalidade de Pure Comedy, Father John Misty preferiu adotar um estilo mais retrô, menos pós-moderno do que as referências e assuntos que ali estão. O disco é repleto de músicas em que os arranjos de piano dão a tônica, somados ao excelente trabalho vocal de Father John Misty – o grande protagonista de cada música, trabalhando bem graves e falsetes, a um só tempo teatral e mordaz. Podemos compará-lo a um crooner, com referências que podem ir desde os setentistas Elton John e James Taylor, mas também o contemporâneo Tobias Jesso Jr. Algumas canções chegam até a confundir o ouvinte de primeira viagem (ou mesmo aqueles que não tem o domínio do inglês, como o resenhista que vos digita), pois a sonoridade é tão adocicada que nos faz pensar estarmos ouvindo uma música sobre amor, quando na realidade Father John está ironizando, criticando, dissecando.

O tratado de Pure Comedy é extenso e intenso, como já dissemos. Talvez, o que tenha faltado neste novo disco seja uma certa capacidade de síntese. “Ballad of the Dying Man”, com seus cinco minutos de duração, consegue ser um ponto de equilíbrio do álbum. Uma letra linda, crítica, contundente e original; uma melodia belíssima, com arranjo de piano, falsetes incríveis de Father John Misty e um coral de voz não convencional quando as luzes da canção estão para se apagar (ou seria o passamento do crítico homem das caixas de comentários das redes sociais?). Sem dúvida, é a melhor canção do álbum, a que vai ficar registrada por um bom tempo como algo “pop”, mas portador de vanguarda. De ótimo bom gosto.

“Leaving LA”, pelo contrário, é a música mais complicada de se ouvir. Possui treze minutos de duração, um violão country bem soft, uma letra que é dividida em dez partes. Ainda que o esforço de Father John Misty seja grande, lá pelos cinco minutos a música já está insustentável, arrastada. Sem dúvida, o maior ponto fraco do álbum, e a canção que tenha dado (ainda mais) essa impressão que falta equilíbrio entre as harmonias e letras. Contrapondo “Leaving LA”, temos a letra bem mais econômica de “Smoochie”. Os slides de guitarra que acompanham o início e o fim do refrão dão a possibilidade do ouvinte saborear um pouco mais a música, refletir, degustar a experiência. E o disco caminha entre sobras e excessos em seus 74 minutos de duração e 13 músicas.

Comparando Pure Comedy com I Love You, Honeybear, temos um Father John Misty ainda sarcástico e irônico, mas muito mais reflexivo. Passagens como “When the historians find us we’ll be in our homes/ Plugged into our hubs / Skin and bones / A frozen smile on every face / As the stories replay / This must have been a wonderful place” que está em “Total Entertainment Forever”, comprovam isso. Oferecem uma visão do criticismo e do espanto do músico para com a tecnologia, a cultura, as relações humanas. Em momento algum, Father John Misty procura ser o dono da razão, mas sim comunicar este espanto em forma de música. Um registro sincero (e um tanto caótico) deste 2017, em que não somos apenas coniventes, mas também cúmplices. É um disco não tão fácil de ouvir, não tão engraçadinho, com algumas falhas, mas ainda assim interessantíssimo. Recomendamos a audição.

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4 comentários

  1. A ouvir o álbum e a ler a tua crítica… até agora tenho que concordar! Leaving LA é um teste de paciência, e eu até sou uma ouvinte paciente. Total Entertainment Forever e Pure Comedy são as minhas favoritas até agora. Birdie e Smoochie já ficaram decoradas. De resto, excelente crítica, muitíssimo bem escrita!

    1. Obrigado, Cabeça na Nuvem! 🙂 Não é um álbum tão fácil de se ouvir quanto o anterior, né? Mas tem suas preciosidades. Agradeço o comentário, fique de olho nas próximas resenhas!

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