2017 Eletronica Funk Indie Jazz Pop r&b Rap/Hip-Hop Resenhas Soul

Thundercat – Drunk (2017)

Com jazz canibal e nível de detalhe absurdo, Thundercat propõe viagem bêbada guiada por Jesus

Por Lucas Scaliza

Drunk, sensacional desde a capa (que mais parece um meme), deixa de lado a vanguarda mais sisuda de Thundercat exercitada no EP The Beyond/Where The Giants Roam (2015) e no segundo disco, Apocalypse (2013), para voltar a uma música mais parecida com a apresentada em sua estreia solo, The Golden Age Of Apocalypse (2011). Trabalhando ao lado do competente produtor Flying Lotus, que entende tanto de jazz, hip hop, música eletrônica quanto de Thundercat, conseguiu criar uma jornada por 23 faixas em que até mesmo o que na mão de quaisquer outros artistas seria uma vinheta, para eles têm um nível de detalhamento absurdo.

Fica claro à primeira audição que o feeling do álbum é mais divertido, brincalhão e até mais leve uma porção de vezes. Passagens como a saída do baixista Stephen Bruner (o próprio Thundercat) bêbado da boate e confiado em Jesus para guia-lo de carro de volta para casa (em “Captain Stupido”), sua jornada turística por Tóquio (“Tokyo”) ou a música dedicada a seu gato Tron rendem boas risadas. Mesmo uma música mais crítica como “Bus In These Streets” (sobre nossa obsessão por telas e conexão o tempo todo) é contada com um R&B mais tranquilo. O mesmo vale para “Show You The Way”, uma incursão mais pop do músico pelo buraco do coelho de sua jornada chapada, e “Drink Dat”, talvez a faixa mais acessível do trabalho.

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Embora o seu lado jazzista não esteja muito explícito no gênero que norteia as faixas de Drunk, está nos detalhes de quase todas as faixas. Uma audição desatenta dessa coleção de faixas curtinhas do álbum pode levar a pensar que a música de Bruner está menos ousada, mas o caso é que o endiabrado virtuoso americano propõe um estilo de composição em que usa faixas menores para mostrar uma quantidade maior de ideias diferentes. E como baixista de mão cheia – que sempre aparece portando seu enorme baixo de seis cordas – ele espalha por todo o disco momentos progressivos que lembram muito a estilo de músicos como o também baixista Evan Brewer (“A Fan’s Mail”, “Where I’m Going” e a virtuosa “Uh Uh”) e uns compassos complicados que fariam Frank Zappa admirá-lo (“Blackkk”).

A qualidade sonora do álbum como um todo será bastante familiar para quem o acompanha. Os grooves, os solos com notas estraladas, os incríveis arpejos (como em “Lava Lamp”, “Jethro”, “Inferno”, “3 AM”, “I Am Crazy”), as batidas abafadas, a voz suave, os falsetes e aquela textura de música levemente viajante com timbres vintage permanecem.

Thundercat, que por muito tempo foi um músico de estúdio e ao vivo para diversos grupos diferentes (de Erykah Badu a Suicidal Tendencies, passando por Kendrick Lamar e o próprio FlyLo), adquiriu a habilidade de fazer músicas que possuem elementos de vários estilos (funk, soul, hip hop, pop, rock e jazz) sem necessariamente ficar preso a um deles. Uma música como “Them Changes”, por exemplo,poderá passar como um R&B pop para quem tiver ouvidos apenas para sua melodia de voz. Mas e aquelas duas camadas de sons lânguidos pulsando em sua base junto com mais dois tipos de batidas? “Friend Zone”, extremamente bem produzida por Mono/Poly, é mais acessível, mas conserva ainda um tanto de elementos estranhos na mixagem. “The Turn Down”, com Pharrell Williams, tem batidas regulares e harmonia marcada pelo baixo, mas há uma massa musical cinzenta abstrata rolando entre as vozes e as batidas, resultado de uma pesada manipulação de sons que antes eram “normais”.

O diabo mora nos detalhes. E é nessas diabruras que Drunk vai revelando suas intenções musicais. Fica também a forte impressão de que em grande parte das faixas, Thundercat priorizou a criação harmônica e as levadas em seu baixo, e só depois pensou em como encaixaria letra ou melodia de voz ali, tal é o apreço pela música, a sofisticação de sua produção e a quantidade de novos fraseados que vão constantemente aparecendo (a escala ascendente e descendente em “Friend Zone” pode muito bem ser a versão gamer de Bruner para o tema de introdução da série Final Fantasy, repararam?).

Vale dizer também que não é só diversão a vida de uma pessoa bêbada. Apesar dos miados mais melódicos que o soul já viu e das referências nerds ao Goku, ao Capitão Planeta e ao Diablo, Thundercat encontra espaço para refletir sobre a morte e a falta de alguém, fala sobre a violência policial contra negros (“Jameel’s Space Ride”), aquele sentimento acachapante de não saber qual será o próximo passo de sua vida (“Where I’m Going?”) e fala do medo que pessoas têm da diversidade e cita o movimento Black Lives Matter com um par de bons versos: “Se todas as vidas importam, por que engasga quando cita os negros? Atrás de nosso céu azul fica o sol, cercado pelo escuro”.

Drunk diz menos sobre o estado etílico de Thundercat e mais sobre a forma como fermentou suas composições. É, de fato, um desses discos em que citar apenas um estilo musical não dá conta direito de descrever nem uma canção. Mostrando muita substância com faixas curtas – e outras minúsculas –, o baixista mostra que o jazz é sim uma metodologia e, melhor do que o personagem de John Legend em La La Land, mostra o jazz com uma pegada do futuro e textura retrô.

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7 comentários em “Thundercat – Drunk (2017)

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