2017 Pop Resenhas Rock

The Mute Gods – Tardigrades Will Inherit The Earth (2017)

Após ótima estreia em 2016, banda dilui o pop e abraça de vez o rock progressivo inglês

Por Lucas Scaliza

O grupo The Mute Gods é uma reunião de grandes músicos que estavam sob as asas de outros nomes mais proeminentes do rock progressivo. Nick Beggs tem andado com Steven Wilson, sendo seu baixista e backing vocal há três turnês (e talvez embarque em uma quarta este ano ainda). Roger King é o tecladista da banda de apoio de Steve Hackett (ex-Genesis). E o carismático baterista Marco Minnemann é parte do trio de fusion The Aristocrats e também já passou pelo line up de estúdio e de turnê de Steven Wilson.

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No The Mute Gods vemos como as excepcionais habilidades desses músicos encontram o bom gosto das composições de Beggs e resultam em canções interessantes e que contribuem com a abrangência das fronteiras da música progressiva. Do Nothing Till You Hear From Me, a estreia, ganhou o prêmio de Vanguarda do Progressive Music Awards em setembro passado ao trazer os elementos do progressivo para uma vibe ora mais roqueira, ora mais pop. O grande diferencial do grupo era justamente esse feeling mais pop em excelentes canções como “Nightschool For Idiots”, “Last Man On Earth” e “Father Daughter”. Em sua segunda vinda ao mundo, a banda dilui o pop e investe em uma sonoridade progressiva mais pomposa e encorpada. Não a ponto de transformar Tardigrades Will Inherit The Earth em algo difícil de ouvir, mas estão muito mais roqueiros dessa vez.

Os bumbos duplos de Minnemann dão as caras na agressiva “The Dumbing of the Stupid”. O single “We Can’t Carry On” coloca o baixo de Beggs na dianteira da canção, conduzindo a harmonia dos versos e com letra com claro teor político. Já a introdução “Saltatio Mortis”, com sua orquestração e guitarra de notas longas, é praticamente um tributo à corte de Hackett e seu estilo mais épico e místico de prog, que se estende até a ótima “Animal Army”, que tem uma das descidas de baixo mais legais do ano. O ritmo constante e texturas oitentista da faixa-título contrastam com o vocal mais grave e mais kautrock de Beggs, ajudando a diversificar os sabores do álbum. Já “Early Warning” mistura algo de Rush com leves toques de King Crimson para uma faixa mais contemplativa e mesmo assim bastante elaborada. “Hallelujah” é pesada sem precisa de guitarras afinadas em Drop C. Com um baixo bem timbrado, os pés ágeis de Minnemann sintetizadores enervantes de King, a faixa é barulhenta e abusa dos graves.

O trabalho com guitarras foi dividido mais uma vez entre Beggs e Minnemann. Se o virtuosismo nas seis cordas não é o que eles almejam, conseguem com louvor executar ótimos riffs e criar temas memoráveis que dão mais dinâmica e força às faixas. Minnemann também responde pela modelagem de som, ofício que junto com as camadas de som de King, criam as excelentes texturas do álbum, como a pegada levemente eletrônica de “Window Onto The Sun” e os sons mais macios, coloridos e viajantes de “The Singing Fish Of Batticaloa”, que deverá agradar muito fãs do progressivo mais imaginativo já feito por Yes, Genesis, The Flower Kings e Transatlantic.

Percebe-se que o lado mais pop do The Mute Gods não foi descartado, mas sim incorporado com muita habilidade ao rock progressivo quando você nota que praticamente todos os refrãos de Tardigrades Will Inherit The Earth são cativantes sem apelar para o chiclete e todas as músicas, inclusive as instrumentais “Lament” e “The Andromeda Strain”, mantém o ritmo do trabalho, que nunca fica enfadonho. No final, “Stranger Than Fiction”, é praticamente o único momento verdadeiramente pop do álbum e que nos leva de volta a Do Nothing Till You Hear From Me.

Tardigrades Will Inherit The Earth mistura o que deu certo no prog oitentista (uma década complicada para muitas bandas cujo prog derivava da década anterior) com o que há de mais moderno no estilo, sem cair gratuitamente em fórmulas complexas. Como seu antecessor, um disco bem produzido e que não afasta os ouvintes. Mas diferente de seu antecessor, está muito mais focado e até um pouco mias ousado. Nick Beggs mostra conteúdo nas letras e vontade de expressar algumas opiniões urgentes sobre nosso tempo. Só por isso o álbum já mereceria o nosso crédito, mas tem tantas outras qualidades que vira uma audição obrigatória.

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