2017 Folk Pop r&b Resenhas Soul

Ed Sheeran – ÷ (2017)

Menos urbano, menos R&B, menos hip-hop e mais baladeiro

por Gabriel Sacramento

Desde X (2014), o que mais o inglês Ed Sheeran tem feito é quebrar recordes. O seu álbum de 2014 foi um dos mais vendidos em todo o mundo por dois anos consecutivos, permaneceu por muitas semanas nas primeiras posições da Billboard e foi um dos mais ouvidos nos serviços de Streaming. Os números são expressivos: em dezembro de 2016, o álbum já tinha vendido cerca de 8 milhões de cópias no mundo inteiro (isso em apenas dois anos). No Spotify, o artista simplesmente se tornou o artista mais acessado.

Diante de todo esse hype e, consequentemente, da superexposição, no fim de 2015 Sheeran decidiu-se por um hiato de redes sociais. Até hoje, o ruivo inglês permanece sem celular e se diz satisfeito com a escolha. Segundo ele, foi uma decisão acertada por fazer com que voltasse a perceber o mundo que existia além da tela digital. Em 2016, ele voltou às redes para anunciar o novo e tão esperado sucessor de X. ÷ (Divide) é o nome do disco, traz mais um símbolo matemático, mantendo a tradição desde o + (2011). Segundo o próprio cantor, era pra ter saído no final do ano passado, mas ele decidiu não lançar por causa dos álbuns do Bruno Mars e The Weeknd.

Todos sabemos o quanto é difícil superar um álbum muito bom. X foi o ápice criativo do Sheeran, com todas aquelas demonstrações de talento envolvendo melodias tocantes, vocais rapeados, harmonias e ritmos cativantes. Para o novo álbum, o team que trabalhou na produção é menor: o próprio Ed Sheeran, Benny Blanco e Johnny McDaid (que já estiveram em produções anteriores do ruivo) e o novato Steve Mac. Este último é produtor da música “Shape of You”, um dos primeiros singles liberados deste álbum, e anteriormente já tinha trabalhado com o grupo The Vamps (no esforço não bem sucedido do grupo de tentar soar maduro no último disco) e também com a cantora Demi Lovato, em seu Confident. Sua participação na faixa foi decisiva para torná-la uma das mais desesperadamente pop do álbum, com uma batida um tanto manjada e simples. No entanto, o interessante da faixa é que é uma das poucas em que Sheeran traz seus criativos vocais sobrepostos e um pouco de swing, que nos faz lembrar dos ótimos momentos de X.

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Aliás, tão certo quanto um novo álbum do ruivo com um símbolo matemático é um álbum em que ele mantém viva sua identidade. Junto com os produtores já conhecidos, Sheeran explora seu bom gosto por escolhas melódicas acessíveis, não tão desgastadas e tocantes, mesmo que endereçadas a um público mais jovem. Aqui, ele também mantém o quê de soul music que também permeou o anterior, bem como flertes com o hip-hop (bem à sua maneira britânica, quadrada e carregada de sotaque) e as brincadeiras com vozes, já tão conhecidas. Quando ouvimos suas harmonias, sabemos que é ele e seus produtores criando espaço para sua imaginação e para que sua pessoalidade brilhe.

“Eraser” apresenta de cara o Ed experimentando com o hip-hop, assim como ele fez em faixas famosas como “Don’t”. No entanto, vale ressaltar a falta que o produtor Rick Rubin faz aqui, uma vez que no X, o produtor ajudou o Ed a mesclar seu lado hip-hop urbano com suas melodias e harmonias vocais de uma forma que tudo soava perfeitamente natural e super cativante. “Eraser” não é ruim, mas poderia ter sido melhor. “Perfect” e “How Would You Feel (Paean)” são as únicas faixas escritas e produzidas exclusivamente por Sheeran. A primeira tem um toque de soul com uma pegada moderna e é uma balada, digamos… Ok. A segunda investe em um arranjo de violão – que é repetido exaustivamente -, sendo uma balada um pouco menos marcante.

“Castle on The Hill” foi a outra faixa que tinha sido liberada antes do álbum sair. A música foi produzida pelo Benny Blanco e co-escrita pelo Benjamim Levin (mesma dupla que trabalhou em “Don’t” junto com o Rick Rubin). Aqui, entramos em contato com o Sheeran contador de histórias, indo até sua adolescência e relembrando momentos que viveu no lugar onde o ruivo passou boa parte da sua infância. A canção possui um bom refrão, uma base esparsa e bem econômica. Duas das faixas mais problemáticas do álbum são:”Dive”, que é como uma versão nova de “Thinking Out Loud”, com a mesma guitarra pausada e passagens que remetem totalmente ao romântico sucesso de X – como o refrão e o pós-refrão. Impossível não se incomodar com a preguiça manifestada na auto-referência aqui. Talvez a única diferença que chama a atenção é a voz do Ed, que soa um pouco mais rasgada. E “Galway Girl”, a ultrapop do álbum, recheada de clichês batidos.

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Mesmo que mantenha sua identidade intacta, parece que o Ed se prende demais dentro dela neste novo álbum. O cantor soa mais pop, opta por mais soluções fáceis, auto-referência e clichês. Pensando, talvez, na manutenção do sucesso e do hype envolvendo seu nome, ÷ (Divide) soa menos urbano, menos hip-hop e possui menos flertes com o R&B. Se antes, tínhamos um pouco do Ed “das ruas”, agora temos mais contato com o Ed “burguês” com música polida, bem produzida e bem embalada. Ainda é o Ed Sheeran, mas um que não se permite experimentar muito dentro do que sabe fazer, entregando apenas o esperado.

Este novo álbum possui menos nuances do que nos trabalhos anteriores. As características distintas da musicalidade do Ed, que eu já tinha citado antes, surgem menos frequentemente. Portanto, trata-se de um trabalho mais focado, mais consistente. O problema é a diluição: tudo soa muito acessível, simples e tranquilo demais, deixando o ouvinte com vontade de mais swing ou mais ritmo. Ou seja, este novo álbum não deve representar um grande impacto artístico no cenário da música pop mundial ou na carreira já estabelecida do cantor. Se, como dissemos, o anterior era fantástico, este fica na média. Não vai convencer ninguém acerca dele, se não já foi convencido com os primeiros discos. No entanto, é certo que deve fazer muito sucesso e tocar bastante por aí, principalmente por causa da boa fase comercial do cantor e pelo fato do nome dele estar cada vez mais em alta.

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