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Momo – Voá (2017)

Voá é o voo mais maduro de Momo

por brunochair

A observar o céu azul de Lisboa, telhados, sentidos e sentimentos de si e dos outros, Marcelo Frota (Momo) decidiu fincar suas desapegadas raízes por ali, por algum tempo. Ele, cidadão do mundo, nascido no Estado de Minas Gerais, já viveu nos Estados Unidos e Angola, passou bons anos no Rio de Janeiro e agora está no além mar, no contra-fluxo dos navegadores, em busca de novas inspirações e olhares. Seguiu o exemplo do casal Marcelo Camelo e Mallu Magalhães, que decidiram por uma vida mais comum, transbordando-a de outros significados.

Voar não é apenas um estado concreto de possibilidade, como a faculdade das aves de lançarem-se aos céus – de Lisboa, do Rio de Janeiro, de Minas Gerais. Voar possui também um sentido metafórico: é poder observar de cima (sem soar pedante, por favor), é estar e não estar, e poder extrair dela outras significações. Voar é lambuzar-se de coragem, ir além do trivial. Sufocar a inação, e só parando se for para contemplar o que se põe à vista naquele exato tempo/espaço. Voá é isso. É um recorte das experiências de Momo – do seu momento contemplativo em Lisboa, das suas parcerias de vida, desse olhar além do cômodo. Trata-se de um cenário reflexivo, sim. Triste? Não neste caso. Voá é um disco alegre, confortante de ouvir, como se o artista estivesse confidenciando sensações e histórias a um velho amigo.

momo voá2.jpg

Um compositor que ajudou-o de forma muito intensa nas letras foi o irmão de Marcelo Camelo, Thiago. O irmão mais novo do ex-hermano é jornalista, mas tem se destacado na carreira de escritor e compositor. A parceria Momo/Thiago foi responsável pelas músicas “Pensando Nele”, “Roseiras”, “Alvoreço”, “Esse Mar”, “Meu Menino”. Além de Thiago, Momo também contou com as participações da cantora portuguesa Rita Redshoes na música “Mimo”, e Wado, o parceiro de várias canções e momentos, aqui representada na criação de “Nanã”. Além de Rita Redshoes, temos a presença de outro nativo das terras do além mar: Camané, que dá voz e corpo à música (fado) “Alfama”.

Ao ouvir as canções com o cuidado que merecem, não há como dizer que Voá não seja o voo mais maduro de Momo. Obviamente que a elegância e o minimalismo do artista em reproduzir suas canções é algo singular e já existente em sua discografia, mas aqui parecem aquilatadas – talvez pelo trabalho de produção de Marcelo Camelo. A voz de Momo transita pela harmonia com mais transparência e contundência, e os diversos estilos tornam o disco multicultural, portador de vários caminhos. Há bossa-nova, há samba triste, há fado, música em inglês, Mallu Magalhães quase imperceptível em “Nanã”, requinte quando se pede requinte e simplicidade quando se pede simplicidade.

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Enfim, em Voá está tudo bem direcionado – letras, sensações, experiências, musicalidade. Os ares de Lisboa parecem estar fazendo bem a Momo, assim como os voos sempre fizeram. Trata-se de um ótimo disco brasileiro, lisboeta, carioca, dos ares e de voos, concretos e metafóricos. Pode contemplar.

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