2017 Folk Indie Pop Resenhas

Astrid Swan – From The Bed And Beyond (2017)

Cantora finlandesa transforma o câncer de mama em um honesto registro de seus medos e angústias

Por Lucas Scaliza

É como se fosse uma mistura entre a alma machucada de uma protagonista de Ingmar Bergman com a disposição musical de Norah Jones e um calculado toque de Kate Bush. É uma combinação estranha no texto, mas não tanto quando se ouve a música. E é mais ou menos assim que podemos dar pistas do que você encontra ao ouvir From The Bed And Beyond, sexto disco da cantora e pianista finlandesa Astrid Swan.

“Maija’s Song”, com sua vocalização que invade a música sem prévio aviso e perturba, é tão dolorida quanto um lamento de Daniel Gildenlöw em In The Passing Light Of Day. “A Long Time Running” dá espaço para uma texturização eletrônica que, como você vai perceber, contraste bastante com o resto do disco. Essas são as duas músicas que abrem o disco e dão a impressão de que estamos diante de algo bastante alternativo.

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De certo modo, sim, mas se Swan pode ser difícil em um momento ou outro, com certeza pensa no ouvinte também. O assunto que une todos os acordes From The Bed And Beyond é a proximidade da morte, ser uma mãe, uma mulher jovem, encarando um câncer que traz consigo uma incerteza desconcertante. E trata-se da história da própria cantora. As letras narram situações e abarcam emoções que ela realmente experimenta desde que começou a combater um câncer de mama em 2014. Isso explica o lado mais barroco do álbum que, se por um lado é tenso, guarda esperança também.

“Skeleton Woman”, a ótima “Chaos” e a acessível “Black Cloud” vêm em seguida, lembrando que Astrid Swan é uma artista do pop que equilibra com muito tato refrãos fáceis e levadas mais folk. Mas não abre mão de nos mostrar que este pop pode vir carregado de tonalidades mais escuras, como em “Song of Fear”, uma valsa em que relata o medo de que a doença leve tudo dela. “Tenho medo de cantar esta canção/ Tenho medo do que está por vir/ Tenho medo do que nem surgiu ainda/ Tenho medo de morrer jovem”, ela confessa com voz aguda, mas gentil. Seu momento mais katebushiano vem em “Centuries of Silence”, música que combina certa aridez com acordes bem escolhidos no piano e um leve toque de mistério.

Swan responde pela composição, pela produção, mixagem e até pela engenharia de som de From The Bed And Beyond, tendo apenas assistência de Nick Triani na engenharia e mixagem. Sua banda é formada também por músicos finlandeses. Um dos méritos do álbum é não descartar o pop que marcou seus discos anteriores, mas também manter a musicalidade aberta para sonoridades mais estranhas e, por isso, mais imprevisíveis também. Não é a toa que a faixa “Special Ones” lute tanto para se desamarrar e se tornar mais convencional, ao mesmo tempo que se recusa ser um pop para as rádios.

Não é um disco de autoajuda e provavelmente nem será indicado para pacientes de câncer. Os mais fragilizados podem não aguentar a sinceridade das reflexões de Astrid Swan. Porém, From The Bed And Beyond é um registro muito bonito de como a compositora aprendeu a conviver com a doença. Sentimos que sua angústia se dissipa quando canta sobre o assunto, mais ou menos como ocorre em uma sessão de psicanálise. Uma indicação a todos, doentes ou não, que procuram uma voz honesta e despojada.

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