2017 blues country Folk Resenhas Rock

Me And That Man – Songs of Love And Death (2017)

Blues, country e folk sombrio que coloca vampiros para dançar e demônios para dormir

Por Lucas Scaliza

Às vezes os pesos pesados dão uma pausa e aproveitam a vida para pegar leve. Assim, apreciam um outro lado de suas próprias naturezas. Pense em Ozzy Osbourne que deixou de ser conhecido pela sua música por um tempo para virar estrela de reality show. Ou pense em O. J. Simpson que… bem, acho que esse deixou de pegar pesado nos campos de futebol para pegar ainda mais pesado no que deveria ser sua vida “cotidiana”.

Algo assim – dar uma pausa, não cometer crimes e nem virar estrela da TV – aconteceu com Adam “Nergal” Darski, o vocalista da grande banda polonesa de black metal Behemoth, após ouvir o excelente Blues Funeral (2012) de Mark Lanegan. A mistura de blues, southern rock, folk e eletrônica, combinado à voz grave do ex-vocalista do Screaming Trees, inspirou Nergal a apostar em um tipo de música parecido. E Nergal, que fez uma turnê vitoriosa com o Behemoth tocando The Satanist [2014] na íntegra, sentiu prazer em trocar as flying Vs com afinação baixa por semiacústicas em que cada acorde Ré resplandece sem precisar de toneladas de distorção.

Me_And_That_Man_2017

Para dar corpo ao projeto paralelo Me And That Man, Nergal invocou o poeta parte britânico, parte polonês John Porter, que divide com ele as funções de cantor e guitarrista. Todas as canções de Songs Of Love And Death baseiam-se em acordes simples e levadas bem manjadas, porém muito funcionais dentro da proposta bluseira, country e folk da dupla. E não espere encontrar uma cópia de Mark Lanegan, mas sim uma mistura de Johnny Cash com Nick Cave, Leonard Cohen e Wovenhand.

O que há de mais singular no disco é que, apesar do formato mais leve em som do que o black metal gutural da banda principal de Nergal, a visão de mundo que ele e Porter expressam nas letras de Songs Of Love And Death são sombrias e pesadas o suficiente para arrepiar os cristãos, judeus, islâmicos e nova-eras mais cabeças fechadas. O disco já abre com uma das melhores do álbum, “My Church Is Black”, em que além de dizer que “minha igreja é preta”, que “nenhum reino [de Deus] está vindo”,  diz também que “o inferno é minha casa” com a maior naturalidade possível debaixo de um ressoante strum em Mi maior. Na lenta e western “Cross My Heart and Hope To Die” ele encarna um personagem (será?) que deixa claro que é um grande caso de bad news. Para o final, deixa que um coral de crianças cantem versos fofos: “Não viemos pelo perdão/ Não oramos pelos nossos pecados/ Traímos nossos querido Jesus/ Escolhemos o inferno na terra”.

Nergal e Porter continuam trazendo sua visão de mundo dark no restante do álbum, como na roqueira “Better The Devil I Know” e na agitada “Love & Death”. Enquanto o líder do Behemoth toma para si o protagonismo nas faixas mais pesadas, que muito lembram diversas fases do Nick Cave, Porter encarna o Johnny Cash em “Nightride”, “On The Road” e “One Day” e outras. As faixas em que Porter toma mais o vocal são mais luminosas e mais cativantes que as de Nergal, que são muito mais escuras, mas não se deixe enganar: se Nergal é o príncipe das trevas, Porter é guardião do livro das trevas.

Tentando preservar as características do blues rock e deixá-las o mais western possível, a dupla opta por um estilo limpo e acessível, bebendo também na fonte do storytelling das murder balads. Um bom disco para assustar os mais conservadores, capaz de colocar vampiros para dançar e embalar o sono de jovens demônios.

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