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Steve Hackett – The Night Siren (2017)

Hackett une sonoridades do mundo todo para falar de união e paz sem pieguice

Por Lucas Scaliza

Como um dos maiores guitarristas que o rock já teve e uma formação musical ampla e clássica, Steve Hackett poderia facilmente tomar um caminho como o de Yngwie Malmsteen ou do conterrâneo Ritchie Blackmore, ambos extremamente técnicos e reconhecidos como precursores da guitarra neoclássica, fundindo escalas de blues com escalas da música clássica. Esses elementos mais eruditos estão no estilo de Hackett, sim senhor, e não é preciso fazer nenhum esforço para encontrá-los, seja em sua obra solo ou com o Genesis. Mas há um feeling diferente no que ele faz, há mais cor, mais melodia e embora sua técnica seja infalível, há muito material acessível e não cai no engodo do virtuosismo pelo virtuosismo. Caso isso não tenha ficado claro, o novo The Night Siren vem corroborar mais uma vez, com um leve acento pop que perpassa todo o disco, aliás.

Assim como em Wolflight (2015), Hackett continua explorando os modos gregos e diferentes tipos de escalas para poder fazer a música de diferentes partes do mundo. Como um artista progressivo, ele é um colecionador de referências e faz de tudo para incluir o mundo em seu caldeirão de ideias. De certa forma, The Night Siren nos coloca mais uma vez diante das mesmas fórmulas que Hackett já utilizara, mas com tantas melodias boas e harmonias sofisticadas que fica difícil não prestar atenção no que ele propõe (novamente).

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Assim, “Behind The Smoke” tem jeitão épico, “Martian Sea” é uma mistura de psicodelia pop com solo de instrumento do Oriente Médio e “El Niño” é quase uma faixa de trilha sonora de Mad Max, misturando orquestração, percussão bem marcada e guitarras distorcidas. “Fifty Miles From The North Pole” é uma dessas composições que Hackett ainda prepara com carinho para nos entregar o melhor do seu espírito progressivo, assim como “In The Skeleton Gallery” tem um solo de flauta de John Hackett que parece remeter à clássica “Firth or Fifty” e uma estrutura que vai do místico ao fusion jazz. “Anything But Love” é flamenco que se transforma em pop e então ouvimos a guitarra com vibratos e bends característicos de Hackett mais à frente; “Inca Terra” coloca o charango peruano para dialogar com as linhas supermelódicas do inglês e do cantor Nad Sylvan; “West to East” não é um dos momentos mais brilhantes de Hackett, mas é uma das mais acessíveis do álbum e trata das guerras em curso em nosso planeta.

Assim como nos discos anteriores, incluindo aqueles em que ele revisita o material do Genesis, há muito de Steve Hackett para se ouvir em The Night Siren. Ele sola o suficiente, canta o suficiente e toma a frente do palco o suficiente para você lembrar a quem pertence o show. Mas é notável, mais uma vez, como ele realmente deixa a música fluir e dá espaço a quem quer que seja para solidificar o lado mais world music do trabalho. Os vocalistas Kobi Farhi (de Israel) e Mīrā ‘Awaḍ (da Palestina), dividem espaço com uma cítara indiana, com um tar (instrumento tradicional do Oriente Médio), com a gaita de fole irlandesa e com músicos da Islândia e do Azerbaijão.

No final das contas, em nosso mundo moderno marcado pela globalização e pelas profundas diferenças culturais e sociais que evidenciadas por políticas nacionais, The Night Siren serve como uma declaração de intenção do guitarrista inglês. Para ele, o disco é como “a visão de um pássaro de um migrante musical que ignora as fronteiras e celebra nosso ancestral comum com unidade de espírito”. Não é a toa que a introdução do disco é um apelo sonoro à crise histórica dos refugiados.

Apesar de mais de 20 pessoas estarem ligadas ao álbum, o centro nervoso do projeto foi o próprio Hackett, sua esposa Jo e o tecladista Roger King (que também toca no The Mute Gods). Trocaram ideias musicais constantemente ao longo de um ano para produzir as 11 novas faixas. Hackett gravou tudo diretamente em um computador, com liberdade para experimentar diversas combinações de pedais e amplificadores simulados digitalmente (Mas não se engane, você nem percebe que a gravação foi feita dessa forma). Em outros casos, os músicos colaboradores gravavam suas partes e mandavam para ele e King ou iam até os músicos para gravar pessoalmente suas partes. Não foi trabalho fácil reunir músicos de tantos lugares diferentes em um mesmo produto.

Não é difícil ver comentário social na produção de Hackett. Um artista tão ligado à história, área de estudo e formação de sua esposa, não está alheio aos problemas do mundo, sejam eles globais (como os refugiados e as guerras) ou o abuso doméstico (tema da música “Love Song to a Vampire”, do disco anterior). The Night Siren é world music e rock progressivo para pregar a paz, sem soar redutor ou panfletário em faixa nenhuma.

 

Photo by Tina Korhonen © 2016, all rights reserved.

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