2017 Jazz Resenhas

Kneebody – Anti-Hero (2017)

Quinteto aprofunda a relação entre o jazz e o rock progressivo

Por Gabriel Sacramento

Sabe o rock progressivo? Diante de todas as características do estilo, vamos nos ater à ideia da palavra “progressivo”. Para mim, amparado inclusive pelo seu significado no dicionário, o “progressivo” do rock progressivo refere-se, entre outras coisas, a uma forma de música dividida em seções, em que cada seção subsequente acrescenta sentido à anterior, enriquecendo ainda mais a experiência auditiva e conferindo assim a ideia de “progressão”. Os californianos do Kneebody reforçam esse conceito e trazem um grande tratado musical sobre isso.

Se você já leu sobre isso, sabe que o rock progressivo surgiu agregando influências de música clássica e jazz fusion. Essa forma de jazz, assim como a música progressiva, apresenta diferentes climas, arranjos bem elaborados e uma forte ênfase nas “seções” de cada faixa. O quinteto Kneebody é formado por Adam Benjamin (teclados), Shane Endsley (trompete), Ben Wendel (sax tenor), Kaveh Rastegar (baixo) e Nate Wood (bateria). Eles aprofundam essa relação entre o progressivo e o jazz, expandindo os limites da própria musicalidade, principalmente neste novo álbum, Anti-Hero.

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Os temas instrumentais são fortemente conectados, trazem um alto grau de complexidade, mas também uma preocupação com o lado mais atraente do som. Talvez não seja para todos os ouvidos, mas recompensa grandemente os ouvintes que estiverem dispostos a passarem pela experiência.

“Uprising” apresenta outra das características marcantes da banda: a utilização de distorção. Eles a utilizam para engordar os riffs, deixando tudo com uma veia roqueira notável, mesmo que não seja rock necessariamente. “Drum Battle” é uma jam de dez minutos, viajante, alternativa e progressiva. Vai de passagens mais “ambientes” à seções super intrincadas, com tempos complexos e ênfase na bateria. O ótimo riff de “The Ballonist” vai ficar na sua cabeça e as notas rápidas de sax em “Yes You” vão te deixar louco. No entanto, tanto a insanidade tresloucada cheia de notas quanto à riffaria pesada se unem harmonicamente para formar a identidade destes cinco músicos.

Neste conjunto de sensações, o quinteto faz a audição valer a pena. Piano, bateria, sax tenor, trompete e baixo se unem para executar as ótimas canções com timbragens precisas para a proposta e com cada instrumentista apresentando a flexibilidade necessária para os diversos solos e arranjos. Eles estabelecem uma saudável comunicação entre algo do rock progressivo e o fusion, sem fugir da ideia de ser essencialmente jazzístico e de ser, vez ou outra, climático. Também são bem dinâmicos, rejeitando a mesmice, explorando nuances diferentes e trabalhando bem a coesão entre elas.

Por essas e outras, o Kneebody, assim como diversos outros nomes, como o Donny McCaslin, Kamasi Washington e Snarky Puppy, anunciam o melhor do jazz instrumental no século XXI. Os conceitos do estilo se mantêm fortes, incisivos, mostrando que com o tempo, o gênero amadureceu, evoluiu e os artistas estão sabendo como aplicá-los à atualidade. Discos e carreiras tão interessantes nos deixam esperançosos para o futuro do estilo e nos fazem crer que trabalhos ainda mais frutíferos estão por vir.

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