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Chicano Batman – Freedom Is Free (2017)

Soul e psicodelia dotadas de crítica social criam o caldo para um dos discos mais interessantes de 2017

por brunochair

Um dos discos mais criativos e interessantes de 2017 foi criado por um quarteto de Los Angeles: Chicano Batman. Um nome não muito comum para um grupo, não acham? Tão diferente quanto o nome da banda é dizer que seu frontman chama-se Bardo. Bardo Martinez é filho de uma mãe colombiana (Cartagena) e de um pai Mexicano. Bardo é amante confesso de música brasileira dos anos 60 e 70, sobretudo da Tropicália e de Caetano Veloso. Some-se a essas influências sul americanas uma admiração profunda pela soul music.

A partir daí, podemos já ter alguma ideia do que encontraremos em Freedom Is Free, o mais novo álbum lançado por Bardo Martinez (vocais, guitarra, órgão), além de Carlos Arevalo (guitarra), Eduardo Arenas (baixo, vocais) e Gabriel Villa (bateria e percussão). O álbum foi produzido por Leon Michels, que contribuiu para esta formação soul psicodélica do trabalho, produtor este que já havia trabalhado com artistas do calibre de Black Keys e Sharon Jones & the Dap-Kings. Este disco, por conta da sua expressividade e força, merece uma análise quase que pormenorizada de boa parte da sua faixa, que é o que pretendo a fazer adiante:

chicano batman - freedom is free3

“Passed You By” já apresenta o seu cartão de visitas logo na introdução, num jogo de riffs de guitarra funky e uma linha de baixo que já remetem a esse soul setentista, e também lembram bastante a ambientação que o Black Keys alcançou com o seu Brothers, de 2010. A grande sacada aqui é que esse instrumental do início é tão criativo que, caso a banda fosse preguiçosa ou seguisse cartesianamente as regras da música pop convencional, jogaria a intro para o meio ou para o fim da música, para criar o clímax só depois de algum tempo. Não, o clímax é logo no começo, e o risco que a banda corria da música ficar morna dali pra frente era grande. Mas, não. É groove do início ao fim.

O vocalista Bardo Martinez apresenta uma performance camaleônica, alternando entre o vocal convencional e um falsete que o acompanha durante boa parte das canções, executado com grande maestria. “Friendship (Is a Small Boat In a Storm)” é prova disso, quando Bardo ataca o refrão com o falsete e dá o irresistível toque soul retrô à música, além de uma sutil ironia. Há que se ressaltar também as variações desta faixa envolvendo o órgão Hammond, a cadência da linha de baixo e os riffs de guitarra extremamente criativos e repletos de psicodelia.

As variações e o falsete seguem em “Angel Child”. Essa música é também atmosfericamente soul retrô, mas segue por outros caminhos além deste. Há um caos em certas passagens, sobretudo no andamento de baixo de Eduardo Arenas. Em “Freedom Is Free” o baixo é talvez o grande protagonista: em conjunto com a bateria, formam a camada sonora para que o restante aconteça. E, mais uma vez, temos excelentes riffs de guitarra de Carlos Arevalo, com ele talvez sendo o grande responsável por incluir doses de psicodelia às músicas.

“Freedom Is Free” é, também, o nome do disco. E o título não foi escolhido por acaso: após o fim da Guerra americana contra o Iraque, vários caminhões nos Estados Unidos apresentavam a frase Freedom Isn’t Free (Liberdade não é livre). A expressão é utilizada para agradecer aos militares por lutar pelas liberdades individuais e promover a democracia a outros cidadãos e povos. Tal ideia é refutada pelos integrantes da banda, que consideram-na uma falácia, inclusive utilizando da antítese desta expressão para dar nome a este novo álbum.

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“La Jura (Prelude)” é criada a partir de um dueto entre guitarra/violão, e apresenta o anúncio de algo muy terrible que está por ser revelado, que é propriamente “La Jura”. “Balaciaron un amigo mio / En la calle cerca de aqui / Lo dejaron abandonado / Un objecto sin vida junto a la esquina / Yo no entiendo porque / Los que deben proteger / Hacen lo opuesto / Matan inocentes”. Ou seja, basicamente a música questiona a repressão coercitiva do Estado, através da polícia. Ainda que os membros tenham nascido em solo americano, todos possuem ascendência latino-americana, possivelmente tenham morado nos subúrbios de Los Angeles e presenciaram essa repressão às minorias – negros, latinos, mulheres. E essa é uma das mensagens que o Chicano Batman tenta trazer também, com a sua música: a crítica, a vivência, o combate através da arte. “Flecha Al Sol” é uma canção questionadora, mas com um espírito mais alegre e festivo que a anterior. “Jealousy”, “Run” e “The Taker Story” são faixas mais tradicionais, que flertam mais com o soul setentista americano. São canções menos inventivas que as do começo do disco, mas mesmo assim não comprometem o resultado final.

Portanto, o Chicano Batman conseguiu entregar um disco de extrema qualidade e bom gosto para o público, fruto de todas as influências psicodélicas e do soul, envolvidas em várias camadas sonoras e também de crítica social. Pode-se dizer que o grupo desenvolve um trabalho até próximo do Unknown Mortal Orchestra, mas menos calcado no hispterismo, ampliando o seu leque de possibilidades. Os falsetes, os riffs de guitarra recheados de psicodelia fazem deste um grande álbum de 2017, que certamente frequentará listas do ano, sobretudo pela sua inventividade e espírito contestatório.

 

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1 comentário em “Chicano Batman – Freedom Is Free (2017)

  1. Grande disco! Parabéns pela resenha.

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