2017 r&b Rap/Hip-Hop Resenhas

Oddisee – The Iceberg (2017)

Mais um grande disco de hip-hop fora dos estereótipos do estilo

Por Gabriel Sacramento

Na resenha de RTJ 3, do duo Run The Jewels, você leu que o hip hop tem sido palco de muitas manifestações de pensamento de forma incisiva e contundente. Mais até do que o rock e, acrescento agora também o R&B, que também tem revelado artistas que não tem medo de falar e de tocar na ferida da sociedade. Mesmo que ainda tenhamos muitos músicos acomodados em suas fórmulas para fazer sucesso, muitos outros têm mostrado indignação com questões sociais e políticas.

Esse é um dos fatores mais interessantes acerca do rapper Amir Mohamed el Khalifa, conhecido como Oddisee. Muçulmano, morando nos Estados Unidos, mas de família sudanesa, o jovem tem muito a dizer e não se esconde: com seu flow ágil, encaixa rimas com significado, levando os ouvintes à reflexão acerca do cenário social do seu país. E o melhor: tudo isso do seu ponto de vista. O outro fator que chama a atenção é o fato de ele prezar por uma forma de hip hop analógica, unindo jazz, R&B, soul e outros estilos. Dá para perceber a dinâmica causada pela mão dos músicos tocando seus instrumentos.

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“Digging Deep” abre com um groove certeiro, uma performance enérgica de bateria, teclado ao fundo e o rap típico do Oddisee. “Things” segue na mesma linha, com um refrão bem interessante também e bem R&B. A faixa traz uma ótima reflexão acerca da nossa capacidade de individualizar nossas experiências como se fôssemos os únicos a enfrentar situações difíceis. Nas palavras do próprio rapper: “é sobre como nós nos colocamos no centro do universo e damos importância somente ao que nos interessa”. Em “Hold it Back”, o rapper toca na questão da diferença de salários entre homens e mulheres e ironiza a constante luta em “NNGE”, dizendo: “O que temer, eu sou da América negra, é só mais um ano”.

Já em “Like Really”, ele questiona: “Porque um irmão pega três anos por drogas, enquanto seu irmão sai impune por estuprar?”. O objetivo do rapper não é fazer apologia às drogas, mas sim questionar duramente a ineficiência jurídica. Mas ele também cutuca Trump: “Como você vai nos fazer grandes de novo se nunca fomos tão bons?”. “Want To Be” é dançante e com um refrão direto: “Eu só quero ser feliz, só quero ser livre, só quero ficar em paz”. Em “Rain Dance”, ele fala sobre ser um artista, um homem casado e até demonstra alguma positividade, falando sobre nuvens escuras que apenas anunciam a chuva e trazem crescimento às sementes – o que é algo bom, no final das contas.

Quando perguntado sobre suas influências, percebemos que Oddisee realmente é um artista diferenciado. Ele respondeu que curte grupos como De La Soul e A Tribe Called Quest, que não falam sobre drogas e assassinatos e por isso ele se relaciona melhor com suas letras. Mas vemos que a influência não é somente quanto às letras, mas quanto à musicalidade também, com a união do hip hop com outros estilos como o jazz. A banda que acompanha o Oddisee faz o rap ser tão bem ambientado sobre as bases jazzísticas quanto o BadBadNotGood emula um bom hip hop old school.

Fazer hip hop inteligente, tanto musical quanto liricamente, é o objetivo deste talentoso músico. Suas raízes e lutas pela vida no país onde vive o inspiram e o fazem querer ir além e fazer algo que realmente impressione. Suas letras são duras, críticas diretas, mostrando que ele realmente está comprometido com o desejo de mudança, não se conformando com as coisas do jeito que estão. Em The Iceberg, ele acerta a mão mais uma vez, continuando o bom trabalho que vem desenvolvendo em sua carreira há anos.

Se rappers como Rick Ross continuam com a temática gangsta durante tanto tempo, Oddisee mostra que é possível pensar em ramificações. O rapper e os outros grupos já citados são fundamentais para nos fazer entender que o gênero vai muito além de beats, samples e papo sobre drogas e sexo. Pode ser aberto à experimentações musicais, ferramenta de crítica social, expressão de pensamento e até voz de uma iminente revolução.

The Iceberg é isso. O disco é excelente, mas ainda assim só a ponta do iceberg que é a discografia de Oddisee. Recomendo que conheça seus outros trabalhos também. Ouça, leia as letras e reflita.

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2 comentários em “Oddisee – The Iceberg (2017)

  1. Muito bom!

  2. Pingback: Snoop Dogg – Neva Left (2017) | Escuta Essa!

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