2017 Eletronica Indie Pop Resenhas

Goldfrapp – Silver Eye (2017)

Dupla eletrônica faz álbum noturno explorando muito bem um pouco de tudo que sabe

Por Lucas Scaliza

Alison Goldfrapp e Will Gregory deixaram para trás o clima soturno e etéreo que marcaram o lindo Tales Of Us (2013) e voltaram a investir em batidas regulares e arranjos sintéticos. Se você achou o último da dupla muito triste ou teve dificuldade para mergulhar naquele rio de devaneios, talvez este te leve de volta ao mundo eletrônico elegante do Goldfrapp.

Os quatro anos entre o disco anterior e Silver Eye marca o maior hiato que o duo já manteve entre lançamentos. Foi tempo suficiente para maturar novas canções e escolher um novo caminho, não repetindo o sucesso do anterior e ainda propondo coisas novas. E Silver Eye, se não tem toda a contemplação e lirismo de Tales Of Us, volta a dar uma sensação de música quase dançante, mas sem perder o feeling de trilha sonora, como em “Tigerman”, e a produção mais etérea, como na ótima “Faux Suede Drifter”.

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As batidas ou se aprofundam na noite ou soam carregadas, um estilo que se deve muito a presença do soturno produtor Haxan Cloak. Sobra eletricidade dos sintetizadores de Alison e Will, aproximando ainda mais o som do álbum de uma trilha de Cliff Martinez. Difícil ouvir “Beast That Never Was” e não reparar em um certo ar retrô, que nos lembra imediatamente do compositor de trilhas como as de Drive e Demônio de Neon. Embora ainda seja um disco noturno, não chega a ser sombrio como Spirit, do Depeche Mode. Na verdade, isso ocorre em grande parte porque a voz de Alison ainda é gentil e suave, mesmo quando canta com seus trejeitos mais fantasmagóricos, como em “Zodiac Black” (a mais marcante assinatura de Haxan Cloak, aliás).

Mas há momentos bem mais animados no álbum, como a dobradinha de abertura “Anymore” e “Systemagic”. Após passar algumas faixas nos envolvendo em névoa sintética e sons cheios de contrastes, a dupla devolve a alegria ao disco com a ótima “Everything Is Never Enough”. O que se segue é mais uma preciosidade: “Moon In Your Mouth” é um dream pop de qualidade sobrenatural, com arranjos que vão tomando a sua paisagem mental, indo e vindo com uma naturalidade incrível.

Alison e Will sabem como tornar suas músicas interessantes e imersivas. A produção é esmerada e nunca peca pelo excesso. A delicadeza com que o sound design opera em cada batida, em cada tecla abaixada ou em como cada camada de sintetizador deve soar é uma aula de bom gosto e de composição eletrônica.

É fato que apesar de toda a habilidade que o Goldfrapp demonstra é um acúmulo de experiências anteriores, já que muitas das facetas discutidas e ouvidas até aqui são reflexos do que já vimos a dupla produzir anteriormente. Mas Silver Eye não é apenas uma coleção de autorreferências. Ele se mantém em pé, e firme, como álbum, soando coeso e não atirando para todo lado. Um novo ouvinte não sentirá o peso da história do grupo ao se deixar seus tímpanos vibrarem na frequência da voz de Alison ou dos sintetizadores de Gregory.

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