2017 Eletronica Folk Indie Pop Resenhas

JFDR – Brazil (2017)

Islandesa faz belo disco íntimo preferindo a tessitura e o feeling ao invés da extensão

Por Lucas Scaliza

“White Sun”, que abre Brazil, deixa entrever que tipo de artista é a islandesa JFDR. O compasso é 2/4 e ao invés de usar os ciclos de quatro acordes para formar uma frase, ela usa um padrão de cinco (caso curta Radiohead, você ouviu esse mesmo padrão nos versos de “Reckoner”). Cada acorde bem sentido pela nota cabeça do teclado e ritmo marcado por microbatidas. Há um dedilhado de guitarra tímido, que só toma o holofote nos últimos segundos da canção. A melodia parte de notas altas e vai ficando cada vez mais grave conforme se aproxima do fim de cada ciclo. É um mantra, mas um mantra difícil de repetir. A voz da cantora é frágil, um sussurro. O que se percebe é que há uma personalidade ali que pode sim refutar alguns padrões, que se preocupa em criar a atmosfera correta para o trabalho e não tem ansiedade em disparar hits ou faixas comercialmente mais adequadas para o ouvinte. E a produção é excelente, mesclando dream pop com música abstrata e eletrônica sem parecer atropelada. Há algo de estranho? Há, mas não perde o toque de veludo.

jfdr_2017

JFDR é uma simplificação de seu nome, Jófríður Ákadóttir. Aos 14 anos, ela fundou a banda Pascal Pinon junto da irmã gêmea e lançaram quatro discos. Ela também é a voz do grupo eletrônico islandês Samaris e já colaborou com as bandas Gangly e Low Roar. Além da voz, conta com algumas habilidades no clarinete, teclado, violão e guitarra. Desde 2015 se dedica à carreira solo e já chamou a atenção de Björk, nada mais, nada menos que a principal embaixadora da música da Islândia. Tudo isso com apenas 22 anos de idade. Brazil fez dela um talento a se observar em 2017.

Em seu primeiro voo solo, JFDR parece evocar ao mesmo tempo o passado e o presente de Björk, entre a fase mais eletrônica e em que utilizou microbatidas e a fase em que passou a compor mais arranjos para instrumentos de orquestra. É impossível não sentir a influência dela. Também é fácil perceber como ela difere da conterrânea: Björk mostra um registro vocal mais alto, mais agressivo e expansivo. Já JFDR constrói seu disco apostando principalmente na intimidade de seus sussurros. “Instant Patience” é uma das melhores músicas do disco e também uma das que mais lembram Björk em suas músicas mais contemplativas. O estilo tímido chega ao limite em “Wires”, quando a voz é quase um sopro e tem-se a impressão de que a vida vai deixar o corpo a qualquer momento, e em “Anything Goes”, quando o fiapo de voz quase chega a falhar.

Faixa após faixa, ela nos mostra que sua música vem das vísceras de sua alma. Não é um estouro de som e pode mesmo parecer meditativo em muitos momentos, mas guarda certa tensão no que canta e nos sons que emprega para emoldurar sua performance, como as saturações elétricas de “Higher State”, as batidas assimétricas de “Airborne” e os ruídos que perpassam toda a harmonia de “Destiny’s Upon Us” como fios elétricos numa paisagem urbana.

Embora siga na trilha de Björk, misturando os rastros já explorados por ela e incorporando tendências do indie pop atual – sem esquecer de dar aquele toque de design sonoro tão típico dos islandeses –, JFDR constrói Brazil de forma bastante consciente de suas limitações, mas muito bem arquitetado. Mesmo os vídeos possuem sacadas e poesias visuais muito interessantes e estranhas também, mas contribuem com a iconografia nascente da carreira solo de Jófríður Ákadóttir.

Ainda há muito mais para se ver de Jófríður, seja como JDFR ou em suas outras bandas. Ela não parece ter ambições megalomaníacas ou que possam colidir com as delicadas estruturas que constrói em Brazil. A garota aprendeu logo que começou a gravar o álbum que sua música não precisava ser perfeita, mas tinha que ter feeling. E feeling, textura e tessitura é tudo o que ela entrega com um punhado de boas canções.

JFDR_Sebastien_Dehesdin

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