2017 Folk Pop Resenhas Soul

Jesuton – Home (2017)

Cantora inglesa estabelece bem sua identidade em terceiro disco

Por Gabriel Sacramento

Lembro-me de, em 2014, assistir vídeos dessa talentosa cantora chamada Jesuton no YouTube. Eram amostras de seu show Show Me Your Soul, em que ela apresentava covers de artistas que foram importantes em sua (e na minha) formação. Lembro-me de ficar surpreso principalmente ao ouvir “People Get Ready” e “What’s Going On” do Marvin Gaye. Era seu segundo álbum e uma reafirmação do seu talento e da sua incrível capacidade musical.

A cantora inglesa veio ao Brasil em busca de sucesso na carreira musical em 2012. Começou cantando nas ruas do Rio de Janeiro e foi parar em programas famosos da Rede Globo, conseguindo um contrato com a Som Livre. Seu novo disco – e primeiro composto somente por faixas inéditas – Home, possui um estilo diferente do que o que ela vinha apresentando.

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A singeleza semifolk que ela imprime em canções como “If I Could” é impressionante. A voz da cantora ressoa em nossas cabeças como quem está muito próximo, com uma interpretação precisa, fazendo com que a faixa seja inesquecível. Destaco o final, com a sonoridade cheia e densa, em um estilo spectoriano de produção que remete aos anos 60. Esse tipo de produção foi elemento marcante em muitos discos de soul que com certeza fizeram parte da educação musical da Jesuton. Apesar do título em português, “Cuidar de Mim” tem só uma frase no idioma. A sonoridade é totalmente soul retrô e a voz lembra muito a de Amy Winehouse, principalmente nas primeiras frases.

A faixa-título abre com uma guitarra muito bem timbrada, que ganha contornos largos dentro do espaço da mix e dá um aspecto folk novamente ao álbum. O refrão reforça esse aspecto, soando como algo indie/folk. “Radio” evoca Amy Winehouse mais uma vez, de forma explícita. Mesmo sendo bem parecida, Jesuton ainda consegue colocar um pouco da sua personalidade na faixa e o resultado agrada facilmente. A solidão que ganha densidade ao final reaparece em “Man of My Life” e “Don’t Think So”, esta última trazendo um belíssimo dueto entre a britânica e Seu Jorge, com um aproveitamento fabuloso das distinções de timbres das duas vozes, que passeiam sobre uma base viajante e inconsistente no espaço sonoro.

Talvez o único ponto negativo de Home seja “Vultures”. A canção possui a participação do guitarrista italiano Salvatore Cafiero, que empresta um timbre característico e pegada marcante. A canção em si é interessante, aborda elementos de rock e funk, fechando o álbum com um clima solto e pra cima. O problema é que destoa totalmente da proposta intimista, reflexiva e densa que as outras faixas construíram ao longo do disco. Ou seja, “Vultures” acaba soando como a sobra que entrou para o disco “por acidente”.

No geral, ouvir Home é bem recompensador. Jesuton mostra uma faceta mais original, com músicas de sua autoria e nos surpreendendo por dar ao álbum um direcionamento diferente dos seus dois primeiros trabalhos. A produção que deixa tudo muito fechado, cheio, ambientalmente pesado e cheio de reverb cooperou para que o disco soasse único e de certa forma original, sem pretensão de imitar ninguém, mesmo que reflita as influências da cantora.

Para quem começou com covers e até então tem sua imagem associada a eles, Jesuton dá um passo importante na carreira, estabelecendo o seu jeito de fazer música. O disco pode desagradar quem esperava algo anacrônico e que bebesse diretamente da soul music, mas com toda certeza irá agradar aos ouvintes que estiverem abertos a uma nova experiência. Em Home, a cantora também nos mostra que tem um pé no folk solitário e intimista e, junto de sua produção, trabalha esse lado de forma clara e inteligente. Entenda como alguém que tem o soul na veia e não pode fugir disso, mas se arrisca com sucesso por um outro tipo de som.

A cantora, que já se sente confortável morando no Brasil há cinco anos, mostra conforto também com seu som, sua musicalidade e entrega um trabalho bem consistente. Home, no final das contas, é um disco seguro de alguém que está em casa, mesmo em terras longínquas.

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