2017 Indie Resenhas Rock

Slowdive – Slowdive (2017)

Primeiro disco em 22 anos mostra que o shoegaze do Slowdive ainda tem pretensões artísticas

Por Lucas Scaliza

O Slowdive foi mais uma banda inglesa que aderiu ao shoegaze e ao rock alternativo nos primeiros anos da década de 90. O grunge ganhava força do outro lado do atlântico e a cena de Seattle apenas crescia. Ao mesmo tempo, na Inglaterra, o britpop viria a aparecer e ganhar a atenção das massas jovens com Blur e Oasis. No meio de tudo isso, o Slowdive se separaria em 1994, pouco antes de lançar o quase ambiente rock Pygmalion (1995). Nick Chaplin, Rachel Goswell, Neil Hastead, Christian Savill e Simon Scott reativaram o grupo em 2014 e, para a alegria de todo o nicho de admiradores do shoegaze, gravaram o bom Slowdive.

Embora “Slomo”, a primeira música do disco, cause preocupação, “Star Roving” vem logo em seguida para nos lavar com o que há de mais característico no shoegaze. O Slowdive entrou de cabeça no projeto de fazer música nova e não traiu o movimento. Em “Don’t Know Why” a massa de som é como uma onda que encobre a voz de Goswell e nos deixa flutuando nas ondas do teclado.

Slowdive_2017

É preciso explicar que o Slowdive, quando surgiu com um EP de respeito e depois em 1991 com Just For a Day, cravando uma poderosa sonoridade em que havia melodia, mas muita reverberação dos instrumentos também, foi muito bem recebido por fãs do rock alternativo da ilha da Rainha e pela imprensa da época (as revistas NME e Melody Maker). No entanto, em pouco tempo as coisas mudaram e o quinteto foi vítima da moda: entre a molecada, não era mais legal ser fã do Slowdive. É bom lembrar que o The Verve também faria seu caminho do shoegaze do primeiro álbum ao rock alternativo e então ao britpop num espaço de cinco anos. Volátil, assim é o mercado musical, afinal.

Mas o shoegaze resistiu. Slowdive é, com a linda barulheira de “Everyone Knows” ou com a melodia de voz e de baixo em “Sugar For The Pill”, a melhor forma de esfregar na cara da moda musical da imprensa noventista que o rock da banda vale a pena e que, no fim das contas, o tempo sobrepujou a moda.

Efeitos de delay, reverb, distorção e overdrive estão por toda parte, dando a ambiência característica aos acordes de Halstead e Goswell. O baixo de Chaplin também pesa no tracklist e segura muito bem as pontas em “Go Get It”, uma das faixas mais diferentes do grupo. Enquanto a voz de Goswell ainda soa como 20 anos atrás, é perceptível que a de Halstead ficou mais roca e perdeu a jovialidade. Mas de resto, toda a produção do disco o faz parecer um grande sucessor de Just For a Day e Souvlaki (1994).

Com a moral restaurada, e sem terem se rendido ao sistema da música inglesa quando o diretor da gravadora pediu que fizessem um álbum pop, usaram Slowdive para marcarem o território, cheio de outras bandas de shoegaze mais jovens, e mostrarem que podem ser ambiciosos. “Falling Ashses”, com oito minutos, parece saída de uma rachadura de aquário, e troca as guitarras por um piano e a bateria por sons e ruídos condimentados em estúdio que seriam previsíveis no Sigur Rós, mas ganham ares de ambição artística com o quinteto.

Slowdive não é nenhum canto do cisne e dá indícios de que esses pais do shoegaze ainda podem ensinar um truque ou outro aos mais novos, seja resgatando alguma coisa do rock que faziam nos anos 90 ou mostrando como a idade os leva até novas experiências que possam somar ao estilo. Sem parecerem pretensiosos e ainda carregando no som o peso da classe média inglesa, o Slowdive entra para o time de bandas que fizeram uma volta digna aos palcos e ao mundo da criação.

Slowdive_2017_2

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