2017 Indie Pop Resenhas

Mew – Visuals (2017)

Agora um power trio, Mew aposta na mesma ambientação sonora do disco anterior

por brunochair

O Escuta Essa não traz somente novidades para o público. Os editores também trocam figurinhas e conhecem grupos novos a partir da indicação dos demais. Foi assim que eu conheci o Mew, em 2015: a partir de uma resenha do Lucas Scaliza sobre o disco + –e uma recomendação mais específica, do tipo, “ouça esse disco com atenção”. Tornou-se um dos que mais ouvi naquele ano.

O Mew tem grande habilidade para preencher uma sonoridade pop com elementos de música alternativa e elementos do rock progressivo. Na época, comparei-os aos Keane, dizendo que trata-se de um Keane “alternativo”, ou Keane “melhorado” (espero que os fãs do Mew entendam a comparação, já que o Keane teve dois ótimos discos, “Hopes and Fears” (2004) e “Under the Iron Sea” (2006)). Além disso, há sim uma influência de música nórdica, uma forma distinta (gelada) de lidar com arranjos e harmonias, o que as diferencia do pop de bandas análogas a ela.

Ao ouvir a discografia do Mew, notei que + – é uma busca do grupo em oferecer uma sonoridade mais palatável ao público. And The Glass Handed Kites, disco de 2005, mostra o que era o Mew em seu início: muito menos pop, dando ênfase nas experimentações e na virtuose, no hermetismo. No More Stories… (2009) já começa a dar vistas de uma guinada do grupo, e até mesmo as capas do disco vão representando essas mudanças estéticas, sonoras, visuais.

De + – para cá, houve uma mudança significativa no Mew: o guitarrista e fundador da banda, Bo Madsen, anunciou sua saída. Houve quem acreditasse que a banda anunciaria seu fim, mas os demais membros (Jonas Bjerre, vocalista e tecladista; Johan Wohlert, baixista e backing vocals; Silas Utke Graae Jørgensen, baterista) não só mantiveram o grupo como decidiram aproveitar o que eles chamaram de “pico criativo” para já produzir material novo, que é Visuals.

E aqui já sentimos a primeira diferença entre o álbum anterior e Visuals: o guitarrista convidado Mads Wenger faz um trabalho até razoável, mas percebe-se o quanto o Mew privilegiou as ambientações promovidas pelos synths aos riffs de guitarra. Para fazer o contraponto, basta pegar a música “Witness” do + – e tentar encontrar algo parecido em Visuals. Não, não há. A guitarra está ali, mas ela está longe de ser protagonista em qualquer momento. Isso não significa dizer que o disco novo é melhor ou pior que o anterior, e sim que a banda soube concentrar suas potencialidades no que os três integrantes originais poderiam oferecer de mais criativo. E sim, conseguiram obter êxito nesse ponto.

mew visuals2

Analisando o disco num aspecto mais geral, Visuals tem ótimas músicas. Outras, regulares. Nessas que estão mais na média do razoável, o problema encontra-se no grupo preso na sua própria proposta, e fica “mais do mesmo”. Exemplos disso são as canções “In a Better Place”, “Shoulders” e, num menor grau, “Candy Pieces All Smeared Out”. Ou seja, se você é ouvinte de primeira viagem do Mew, talvez goste dessas músicas por elas serem novidade. Porém, quem ouve o grupo há mais tempo, poderá sentir um certo tédio ao se deparar com elas.

Agora, algumas músicas se destacam exatamente pelo Mew conseguir amarrar o pop alternativo (alguns definem como art pop) ao progressivo. Casos das músicas “85 Videos”, “Carry Me To Safety” e “The Wake Of Your Life”. Em “Twist Quest”, mais uma música que considerava bem agradável, mas tornou-se genial no momento em que apareceu um solo de sax no decorrer da música, algo que até então não tinha aparecido. Ou seja, um recurso utilizado em um momento especial da música e que nos pegou de surpresa. Ponto positivo pro Mew.

“Learn Our Crystals” é a minha preferida do disco. Nela, fica evidente o quanto a banda consegue desenvolver a característica progressiva dentro desse art pop. Começa com um simples dedilhado de guitarra, e aos poucos o vocal e os synths começam a aparecer e preencher os espaços. A linha de baixo também é um aspecto a ser observado. A bateria surge discreta, mas toma uma cadência completamente diferente aos 1’15” e leva a canção pra um lugar completamente diferente. Mais uma guinada da música acontece lá para o fim, lá pelos quatro minutos cravados de música: um instrumental poderoso, em boa parte por conta da emulação de órgão realizada por Jonas Bjerre.

Enfim, em Visuals o Mew consegue provar ao público e a si mesmos que é possível seguir adiante sem o guitarrista fundador da banda. Deram mais força à ambientação promovida pelos synths, e seguem apostando numa sonoridade próxima àquela realizada em + -, ainda que estejam agora num power trio. O que permanece (e prevalece) é a vontade de escutar o grupo dinamarquês. Pode dar play, sem medo.

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