Richie Kotzen – Salting Earth (2017)

Disco ressalta a capacidade do músico de harmonizar suas muitas facetas

Por Gabriel Sacramento

Desde que descobri que o Richie Kotzen tinha sido o guitarrista do Mr. Big em um dos meus discos favoritos dos californianos, passei a acompanhar a carreira dele, desde suas participações, bandas e carreira solo. O que sempre foi muito recompensador, visto que o músico é bastante talentoso, tem uma identidade forte e transmite isso bem em cada música que grava. Além de um guitarrista virtuoso, o cara também é um excelente cantor, com um ótimo timbre vocal (que lembra demais o Chris Cornell) e uma técnica que está sempre em forma.

Seu estilo sempre foi composto por muito de funk, soul e blues misturados com rock. Kotzen sabe como poucos pegar um elemento de um estilo e jogar no outro, mantendo-os reconhecíveis na mistura e enriquecendo a experiência e a audição. Foi assim no Mr. Big, quando sua presença na banda permitiu que eles enveredassem por um som mais funkeado, com muita consistência, e tem sido assim com os projetos de que tem participado.

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Kotzen também é sempre muito prolífico. Recentemente, tem se dedicado ao The Winery Dogs, trio que formou com Billy Sheehan e Mike Portnoy, mas também tem achado tempo para continuar o fluxo frequente de lançamentos de sua carreira solo. Em 2015, ele lançou Cannibals, um disco que representava uma fase menos roqueira e menos intensa do músico. Este ano, lançou Salting Earth. Ele continua gravando e produzindo quase tudo que entra no disco, o que ressalta ainda mais o seu talento e versatilidade. A única exceção aqui é a voz feminina gravada pela sua namorada, a brasileira Julia Lage.

Salting Earth traz mais peso e agressividade que seus dois antecessores – 24 Hours (2011) e Cannibals (2015). Há menor predominância da sonoridade R&B e dançante e pode ser entendido como uma tímida volta aos discos mais roqueiros como Get Up (2004). Temos várias músicas com as guitarras distorcidas dando o tom: “End of Earth”, “Thunder”, “Make it Easy” e “Divine Power”. A primeira possui um vocal distorcido bem diferente do comum do Kotzen, com um pouco mais de agressividade (soando ainda mais como o Cornell). O vocal soa muito bem colocado entre os riffs potentes. Já “Make It Easy” traz um quê oitentista, com um refrão que lembra a ex-banda do guitarrista, o Poison.

Mas também temos baladas: “I’ve Got You”, com letra simples, um baixo forte e uma guitarra que dá um charme sem prejudicar o refrão melodioso e chamativo. O baixo também chama a atenção na também romântica “My Rock”, o que mostra que Kotzen está cada vez melhor no instrumento. Ainda entre as baladas, temos a semiblueseira “This is Life” e a good vibes “Grammy”, com um violão bem ensolarado. Dentre todas, a que mais se destaca e até destoa um pouco é essa última. “Meds” parece ter sobrado de Cannibals, tamanha é a vibe um pouco roqueira mas sem tanta distorção que predominou no anterior.

Em Salting Earth, Kotzen explora diversos timbres, indo do piano elétrico à típica guitarra distorcida, passando pelo baixo, bateria e até violão. Mesmo que a bateria, por exemplo, soe bem simples em alguns momentos, a dinâmica que o músico consegue desenvolver é suficiente para as canções funcionarem bem. A impressão é que ele se dedicou com igual intensidade a todos os instrumentos que se propôs a gravar e não somente aos principais.

O novo disco, assim como o anterior, é muito bom de ouvir, mesmo que não seja excelente. O mais legal do álbum é o equilíbrio que Kotzen consegue destacando todas as suas facetas da mesma forma, sem exagerar demais em nenhuma delas. Se você gosta mais do Kotzen vocalista ou do Kotzen guitarrista do começo da carreira, prepare-se para ouvir essas duas características um pouco mais tímidas aqui, a fim de harmonizar com as outras e oferecer um resultado mais coeso e consistente.

A sua discografia continua irrepreensível. Cada disco parece aumentar a validade da fórmula e de sua capacidade criativa. Salting Earth é superior à Cannibals: além de abarcar os mesmos parâmetros, ainda traz um feel mais old school. Ouça sem medo.

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