Thurston Moore – Rock N Roll Counciousness (2017)

Moore contrasta jams repletas de fuzz e euforia garageira com letras hippongas

Por Lucas Scaliza

Leva precisamente 7 minutos e 47 segundos para ouvirmos a voz de Thurston Moore em seu novo álbum solo. Mas antes das palavras saírem de sua boca, o som de sua guitarra – que vamos considerar sua segunda língua – é a primeira coisa que ouvimos ao dar o play em Rock N Roll Consciousness. “Exalted” tem o Thurston Moore dos dedilhados, dos riffs que se criam a partir das levadas da base e o guitarrista solo que adora um fuzz. Tem também o Thurston metaleiro, uma faceta que custou a aparecer em sua carreira solo. Mas cá está ele, arrebentando o instrumento com peso e os ruídos que sobram do fuzz, deixando a bateria de Steve Shelley (também ex-Sonic Youth) contribuir também, claro, mas bem abafada, diferente do que geralmente uma banda faria num momento como esse. É Thurston em primeiro e em segundo plano.

thurston_moore

Acredito que grande parte dos interessados em Thurston Moore, e neste álbum, são fãs do Sonic Youth ou pessoas que já conhecem o guitarrista de outros tempos e outros projetos. Portanto, acredito que, em sua maioria, sejam leitores e ouvintes acostumados com a excentricidade, com a rispidez com que frequentemente trata as seis cordas em uma canção ou pessoas versadas em rock alternativo. Mais do que qualquer outro álbum solo, Rock N Roll Consciousness é o que mais exige do ouvinte.

Diferente de seu ex-parceiro, Lee Ranaldo (que sabe ser diferentão na forma e aprazível no que produz), Moore é abrasivo como nunca no som, se aproveitando da presença de James Sedwards na segunda guitarra para propor jams roqueiras e até mesmo eufóricas. Já as letras – uma contribuição do poeta inglês Radio Radieux – são as mais ternas dentre seus cinco discos de estúdios e evocam um período de sonhos da Califórnia hipponga.

As repetições, como em “Cusp”, causam uma sensação inquietante. Mesmo “Turn On”, que começa muito mais melódica, e “Aphrodite” acabam caindo nos mesmos maneirismos guitarrísticos apresentado em faixas anteriores – mão direita insana, flertes metaleiros, passagens harmônicas com complemento do baixo de Debbie Googe (My Bloody Valentine) e solo com cara de espontâneo. E se o ex-Sonic Youth parece-se muito com ele mesmo, “Smoke of Dreams” soa como uma faixa de Demolished Thoughts retrabalhada para a estética mais rock’n’roll de garagem do novo disco.

A produção é sempre bem crua, deixando claro que se trata de uma banda bem compacta e bem resolvida no comando de tudo. Sob o comando de Paul Epworth (que já trabalhou com Adele e Paul McCartney), nada de teclados, orquestrações ou truques de produção para preencher os vazios.

Embora possa ser um pouco desconcertante, é o tipo certo de desconcertamento. Moore chega à “consciência rock’n’roll” que almeja e é capaz de colocar o ouvinte mais entregue em êxtase também. Mas é menos prazer ou satisfação e mais um estado de nervosismo. Isso é o que o rock também causa na gente.

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