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Vanguart – Beijo Estranho (2017)

Do ponto mais alto da cidade vazia, o Vanguart espalha sua música com Beijo Estranho

Por Eder Albergoni

Música é, na maior parte do tempo, uma coleção de sons sensitivos e de passatempo corriqueiro. Longe de seus tecnicismos e virtuosismos frequentes, ela nos serve como fator integrante do ambiente, ou seja, de tudo que nos cerca. Fora padrões reconhecidos como culturais, ela geralmente se urbaniza como no nosso dia a dia, no sentido mais próximo possível da interação social. Mas às vezes ela necessita que você se feche nela.

Beijo Estranho, o novo disco do Vanguart, guarda em suas faixas a sensibilidade de imaginar mundos estritamente escondidos ao nosso redor. É como entrar em um casarão colonial, com seus móveis imponentes e brilhantes, bem no centro da cidade mais urbana do planeta, mas completamente vazias. A casa e a cidade. Uma espiral que te leva mais pra dentro e cada nota cantada, tão peculiarmente como sempre faz Hélio Flanders, soa como um piano de cauda reverberando na cidade vazia, a cidade dentro de você.

vanguart_2017

E aos poucos a cidade vazia vai ganhando contornos e cores e vão fazendo mais sentido conforme o mundo de Hélio e companhia avança dentro da sua cidade. A música que dá nome ao álbum não empolga tanto de início, apesar de dar o tom que todo o trabalho adquire. Cabe a “Todas as Cores” mostrar aquilo que, diferente dos discos anteriores, tem notoriamente um frescor otimista.

Então, com a roda montada, Beijo Estranho ergue bandeira e procura o lugar mais alto da sua cidade pra fincá-la. Não é, desde sempre, uma luta pra conquistar um reino, pelo contrário. “Felicidades” é um espelho onde você se vê sangrando numa batalha travada com você mesmo numa versão passada. Talvez também refletindo o que você sentiu enquanto ouvia os discos anteriores.

“E o Meu Peito Mais Aberto que o Mar da Bahia” te puxa da areia movediça e te coloca de novo no centro da sala com o piano de cauda. E o meião do disco te faz perceber que quem toca o piano dessa vez é você. É como se a música fosse se modelando ao nosso pensamento. Seja nas dúvidas e perguntas mais sinceras ou nas confissões que são muito difíceis admitir. Porém a batalha é a mais suave, uma viagem tranquila entre o centro e os subúrbios da sua cidade vazia, que nessa altura já se preenche com as pessoas que trazem com elas alguma forma de crença. “Quente é o Medo” é o ponto sem retorno, aqui a guitarra de David Dafré e o violino de Fernanda Kostchak casam perfeitamente e dançam exatamente onde a bandeira repousa absoluta. Reginaldo Lincoln ainda canta o veredito: “Eu não preciso de mais nada”.

A busca pelo lugar perfeito dentro de você se conclui com Hélio afirmando que o amor é a pancada mais dura que nos guarda o privilégio de permanecer – e nesse caso o amor é tudo que impacta, que causa qualquer estímulo. Ou existir, da forma como nossa cidade puder se aguentar – e nesse caso a cidade é esse lugar que governamos passivamente sempre esperando a próxima pancada. A música é aquilo que ajuda a estancar o sangramento. Na maior parte do tempo ela só precisa começar e a gente encontra um grandioso remédio. Beijo Estranho, mesmo cutucando as feridas, é um ótimo anti-pessimismo.

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