Woods – Love is Love (2017)

Um tratado folk sobre o amor

Por Gabriel Sacramento

Uma das minhas leituras do ano passado foi o livro 1965, o ano mais revolucionário da música – que é muito bom e vale a leitura. Dentre outras coisas, o livro contava o panorama musical da década emergente de 60 e o surgimento e explosão de diversos estilos musicais. Um deles era o folk rock, que teria sido iniciado pelos The Byrds, que tocavam músicas do Bob Dylan com instrumentação de rock. Com o sucesso do gênero, surgiram várias bandas que buscavam o mesmo som, unindo Woody Guthrie à Chuck Berry, assim como os próprios Beatles.

Saiamos dos anos 60 e viajemos quarenta anos depois. Sob a bandeira da música independente surge, em 2005, o Woods, banda do Brooklin que fazia uma especie de folk rock, com ruídos e uma produção lo-fi. A impressão que se tem ao ouvir os primeiros registros – principalmente o esquisito Songs of Shame (2009) – é que estamos ouvindo uma banda de indie folk rock, que permanece sempre aberta a novas experimentações, com coragem e vontade de inovar. Dylan foi duramente criticado quando surgiu tocando guitarra em festivais conservadores de folk. Influenciado por isso, o Woods segue na contramão do totalmente acessível e do belo para criar o seu som.

woods_band

Com o tempo, no entanto, a produção da banda foi ficando um pouco mais sofisticada. Não que deixasse de ser independente, pois as gravações continuam sendo no estúdio caseiro do vocalista Jeremy Earl, que também cuida de todas as obrigações de engenharia de som das obras. Mas o som foi ficando mais polido de uma certa maneira, embora mantivesse o aspecto folk rock meio indie de sempre. No lugar do noise frequente de antes, temos mais espaço para as melodias – que ao mesmo tempo em que reforçam um aspecto mais acessível, também servem para reafirmar a esquisitice tão marcante da banda. Afinal, essas melodias não são tão ajeitadas e estruturadinhas como no pop comum.

O novo álbum foi chamado Love is Love e é na verdade um EP de seis faixas. A faixa-título abre com uma ótima linha de baixo e melodias que se tornam, depois de algumas audições, inesquecíveis. O aspecto lo-fi ainda está presente e dialoga bem com o aspecto mais moderno e polido. “Bleeding Blue” também é composta por boas melodias, um violão conduzindo boa parte da faixa e um tema instrumental que mais parece tema de marchinhas, mas que funciona bem dentro do arranjo. O tema é até meio celta e lembra um pouco o Dropkick Murphys. “Lost in a Crowd” é a primeira faixa realmente folk com os violões nas pontas da mix e um espaço aberto para os instrumentos no meio.

Temos uma faixa mais experimental – “Spring Is in The Air” – que traz instrumentos de sopro e um clima arrastado e mais contemplativo. O detalhe é que a faixa possui dez minutos e não varia muito – sempre estamos de volta ao riff principal. “Hit That Drum” é densa e vai ganhando profundidade a medida em que o arranjo cresce. Tem mais foco na ambientação e não na instrumentação normal como as outras. Temos ainda “Love is Love (Sun on Time)”, que é como uma reprise da primeira faixa, só que com mais swing. Mesmo com a cozinha explorando um pouco mais de groove, a voz do Jeremy continua do mesmo jeito e isso dá um toque especial à faixa.

O EP é um tratado folk sobre o amor e a maneira como o tema é abordado é o real diferencial. Não temos aqui clichês baratos e fáceis de compreender. Quando ouvimos Jeremy cantar “Diga que o amor é o amor”, não estamos plenamente certos a que ele se refere, embora tenhamos em mente que trata-se do amor e do seu medo de que o amor como ele conhece seja descaracterizado ou desvirtuado. É folk, principalmente porque, mesmo falando sobre amor, a parte musical da banda continua característica, forte, como sempre, sem inserção de elementos para tornar tudo acessível demais.

As melodias típicas da banda continuam vivas em Love Is Love. Junto com as linhas de baixo sempre ditando o ritmo das faixas e elementos intermitentes que surgem para dar um acabamento aos arranjos, tudo coopera para tornar a audição interessante e gratificante. O folk rock do Woods permanece se renovando dentro de si mesmo. Eles descobrem saídas para não soarem monótonos ou simplesmente repetirem a si mesmos, sem precisar mudar de gênero. Sem também abrir mão da esquisitice, da falta de jeito, da inocência e do aspecto alternativo. Um EP tão bom quanto um álbum seria. Um verdadeiro must-listen, afinal.

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