2017 Funk r&b Rap/Hip-Hop Resenhas Soul

Snoop Dogg – Neva Left (2017)

O grande Snoop ressalta que nunca deixou de fazer hip hop

Por Gabriel Sacramento

Em seu terceiro disco em três anos, Snoop Dogg trouxe uma proposta diferente, de novo. Mas calma, não é como o John Mayer, que não sabe o que quer. Dogg sabe bem o que faz e o que põe em sua música, tudo se conecta com precisão. Se no Bush ele experimentou com funk e disco e no Coolaid reafirmou o quão lendária é e sua importância para a indústria, indo fundo no hip hop mais tradicional, em Neva Left Dogg mistura os delírios dos anos 90 com outros momentos da sua carreira. Como ele mesmo afirmou em uma entrevista, o objetivo do novo disco é unir tudo que ele já fez.

Podemos dizer que Bush mostrou que Dogg não permaneceu totalmente indiferente à veia mais diferenciada do hip hop que está bombando por aí (essa que mixa o estilo com funk, disco, jazz e tudo mais). Mas o do ano passado e esse, mostram que o rapper sabe bem de onde veio e curte valorizar isso também. Especialmente em Neva Left, no qual o lance é resgatar mesmo a vibe dos subúrbios americanos dos anos 90. Tudo isso mostra que o hip hop atual pode sim ser multivalorado e se adequar à diversas situações, sempre funcionando como uma boa válvula de escape diante da, eventualmente opressora, vida cotidiana.

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Como não lembrar do icônico Notorious Big ouvindo “Mount Kushmore”? A faixa traz três rappers, o que lembra também os velhos tempos em que os MCs faziam aquelas batalhas nos shows. A faixa-título possui aquela linha melódica quase hipnótica que fica se repetindo ao fundo, lembrando tempos antigos também. O sintetizador de “Moment I Feared” – uma das melhores do álbum – remete ao também forte sintetizador de “Who Am I (What’s My Name)?” do primeiro álbum. Mas não é só essa. Em várias faixas predomina a ideia de misturar uma linha de baixo forte ao fundo e o rap na frente, como nos primórdios, quando os raps nasciam de samples com linhas de baixo expressivas.

Mas como eu disse antes, não é só de nostalgia que vive Snoop Dogg. Então temos também trap (“Trash Bags”), canções que possuem uma abordagem mais orgânica e modernosa (“420 (Blaze Up” e “Love Around The World”), outras com toques de R&B e funk (“Go On”). Temos ainda um remix da faixa “Lavender” do BadBadNotGood, com a voz do Snoop sobreposta. Colocar a música foi uma decisão bem acertada, principalmente porque Dogg queria justamente captar o espírito do hip hop moderno e o BadBadNotGood representa bem isso.

Fugindo da nostalgia mais ingênua, que visa escapar da realidade atual e refugiar-se no passado, Dogg trouxe um produto inteligente articulado e elaborado, que visa e alcança o objetivo de nos fazer pensar toda a sua carreira e as nuances que explorou ao longo dela em 1 hora de audição. Ou seja, ele usa a nostalgia como um meio e não como um fim. Algumas coisas podem soar realmente datadas, mas no conjunto temos a impressão de ouvir algo que transcende a noção temporal.

Percebemos também que as letras de Dogg representam um manifesto. O rapper quis responder aos que o criticam, deixando claro que nunca deixou o rap e que ainda está no jogo. A faixa título, por exemplo, começa com uma frase dizendo “E aí, Snoop, as ruas estão dizendo que você não é mais o mesmo”. Já “Still Here” começa com um diálogo entre um garotinho e Kendrick Lamar, no qual o garoto pergunta se ele conferiu o novo disco do Dogg e diz “Snoop está de volta”. Kendrick, por sua vez, responde: “Aí é que você está errado, pois o grande Snoop nunca saiu”.

Nos aspectos modernosos, Snoop não teve nenhuma pretensão de soar como um Kendrick Lamar ou como um Oddisee. Mas o rapper consegue, como poucos, pegar um pouco do que está rolando e incorporar em seu trabalho old school, reforçando os aspectos do hip hop de antigamente, nos fazendo perceber como o gênero evoluiu. Além de divertido, Neva Left pode ser uma boa aula, afinal.

Segundo uma entrevista recente, Dogg afirma que teve total liberdade criativa e trabalhou sem pressão para lançar Neva Left. Foi um trabalho direto do seu coração. Um grande presente para os seus fãs e admiradores que o acompanham, para provar que acima de tudo, ele continua prolífico e mantendo a qualidade em seus lançamentos. Pegue a sua jaqueta, ponha uma corrente e um boné e se divirta.

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1 comentário em “Snoop Dogg – Neva Left (2017)

  1. Pingback: Calvin Harris – Funk Wav Bounces Vol. 1 (2017) | Escuta Essa!

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