2017 Pop Resenhas

Matty Mullins – Unstoppable (2017)

O Matty Mullins se dá muito bem com o pop, afinal

Por Gabriel Sacramento

Antes de ouvir Mr. Marvin Gaye e ter minha vida mudada, tudo o que eu ouvia era basicamente música pesada. E além de ouvir, tinha o costume de acessar fóruns e grupos de discussão sobre as bandas e os álbuns. Um dos comportamentos mais frequentes dos fãs nestes fóruns era a não aceitação de quaisquer tipos de mudança nas fórmulas sonoras. Se a banda, que era pesadona, começasse a inserir melodias, era taxada como vendida. Se começasse a flertar com outros estilos, vendida também. Para eles, nada além da fórmula estática e preestabelecida é válido. Bem, pra esse tipo de fã, o Matty Mullins, vocalista do Memphis May Fire, pode ser considerado um herege.

Isso porque além de ter feito seu nome como vocal de uma banda super pesada, egressa do cenário americano do metalcore cristão, Mullins tem também uma carreira solo explorando outra sonoridade, mais calcada no pop, sendo um refúgio criativo para suas ideias que não entram no MMF. Não é a primeira vez que fazem isso e, no entanto, cada vez que ouvimos falar disso, ficamos curiosos para ver no que vai dar. E, claro, as eventuais comparações com as bandas principais são inevitáveis.

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Ok, o MMF não é mais tão pesado assim. No último disco, por exemplo – This Light I Hold (2016) -, já haviam músicas mais maleáveis, músicas cantadas inteirinhas com vocal limpo (o que é quase uma heresia para os fãs hardcore), nas quais Mullins pôs um pouco mais de si e mostrou um pouco do seu belo timbre de voz. Mesmo assim, a experiência de colocar o trabalho solo dele na sequência da audição da banda pode ser assustadora e frustrante para muitos, principalmente para os órfãos da dinâmica de discos como Challenger (2012).

Portanto, Mullins está mais para um Casting Crowns do que para um For Today em sua empreitada solo. Aqui há um esforço em terminar o álbum com a mesma empolgação do início, melhor do que no trabalho anterior. Temos por exemplo “Say it All” abrindo o trabalho com um refrão convidativo que te faz cantar alto junto com a música. Mullins me lembrou um pouco de Jeremy Camp, outro grande nome do pop rock gospel americano. Lá pelo final do tracklist temos “You Can”, canção construída sobre um clima mais melancólico no início, mas logo cai na popzera tradicional. Ainda assim, o refrão tem potencial de invadir rádios com muita empolgação. No meio, temos melodias grudentas em canções como “Go To Distance” e “The Great Unknown”, que mostram acima de tudo que o vocalista está bem confortável com a proposta que tenta explorar.

Como um bom ouvinte do Memphis May Fire antigo, e de bandas brutas como For Today, War of Ages e August Burns Red, eu mesmo fiquei relutante antes de encarar o novo disco de Matty Mullins. No entanto, preciso admitir que o cara se encontra em boa forma fazendo esse pop elegantemente simples, grudento e radiofônico, um som que é pop sem medo e não tem vergonha de abordar os clichês do gênero e se apresentar um tanto formulaico. A fórmula foi bem aplicadinha, cada aresta foi aparada como receitado, mas o resultado foi ainda assim surpreendente, tamanha é a desenvoltura que o cantor possui.

A partir dos discos da sua banda, já sabíamos do seu potencial com melodias mais, digamos, fofas. Unstoppable é Mullins mergulhando de cabeça nessas ideias, buscando redirecionar sua mensagem de fé para uma galera diferente mesmo, uma galera menos exigente até. O disco acerta nesse sentido, tem boas melodias, bons ganchos e pode entrar na sua cabeça e vir à tona quando você estiver prestes a assoviar alguma coisa.

No entanto, precisamos pontuar os fatores negativos. Um deles é o tratamento dos instrumentos específicos aqui, tanto na mix quanto nos arranjos em si. A impressão que se tem é que aparecem somente para marcar mudanças de acordes e guiar o cantor e mesmo que alguns detalhes de instrumentos surjam, não são bem valorizados ou não chegam ao primeiro plano. Aí fica a sensação de que você ouviu uma linha melódica ou um fill interessante de algum instrumento, mas bem baixinho e quase imperceptível. Em muitos momentos também, é difícil distinguir os instrumentos de base e temos a impressão de que eles não estão cooperando definitivamente como deveriam.

Unstoppable, o seu segundo trabalho solo, funciona melhor como um álbum pop do que o primeiro. O álbum é um dos melhores de pop gospel que entraram nos meus ouvidos ultimamente, bem melhor que muita coisa de gente já bem estabelecida por aí. O amadurecimento de Mullins joga a seu favor e pode levá-lo para um ainda melhor terceiro álbum, caso continue investindo nas boas ideias. Agora, caso queira ouvi-lo gritando a plenos pulmões como antes, procure os álbuns antigos do MMF e contente-se: essa é a nova diversão do cantor.

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