2017 Jazz Resenhas

Miles Mosley – Uprising (2017)

Um dos melhores do ano! Uma coleção de boas pedidas soul, jazz e funk

Por Gabriel Sacramento

Se você acompanha o Escuta Essa Review, sabe o impacto que The Epic do Kamasi Washington causou quando lançado em 2015. O disco trouxe uma abordagem tipicamente moderna do jazz e que os jazzistas deste século podem chamar para si com orgulho, de uma força e espontaneidade quase sobrenaturais. Mas Kamasi não estava sozinho quando criou o álbum. Junto com ele, trabalharam juntos outros músicos que estão igualmente comprometidos em fazer o jazz soar rico, poderoso e sair do cubículo de nicho, alcançando mais pessoas. São eles os integrantes do West Coast Get Down, grupo de Los Angeles composto por Ryan Porter, Tony Austin, Miles Mosley, Cameron Graves, Ronald Bruner Jr. (irmão do Thundercat) e Brandon Coleman.

O grupo fez várias jams e gerou vários álbuns que saíram como álbuns solo dos integrantes e não como álbuns do grupo. São eles o do Cameron Graves, Ronald Bruner, Thundercat e o do Miles Mosley, objeto desta resenha. Fora, é claro, o épico do Kamasi. Destes todos, Uprising, do Mosley, é o mais acessível para os não conectados na jazzaria de LA, agregando amigavelmente outros elementos de soul, funk e tornando a música um caldeirão de referências que não soa como um conjunto de colagens, mas algo mais coeso que isso.

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Miles Mosley é baixista, vocalista e já tocou em álbuns de gente famosa e respeitada como Chris Cornell, Joni Mitchell, Jeff Beck, Cristina Aguilera e Kendrick Lamar. Toca baixo acústico, em contextos que pedem uma abordagem elétrica, mas se sai bem. Além dessas cooperações e do WCGD, Mosley tem seu trabalho solo, um projeto chamado BFI com o baterista Tony Austin e é membro da banda solo do Jonathan Davis, do Korn. (Não está fácil ser músico nem aqui, nem em LA, daí a necessidade de centenas de projetos).

Agora vamos para o tradicional detalhamento das faixas. Começamos falando das melhores do álbum: “Abraham” e “Heartbreaking Efforts of Others”. A primeira com um delicioso riff de piano que dá o ritmo, enquanto baixo e bateria pontuam notas. No entanto, a bateria de Austin se desenvolve de uma maneira espetacular no desenrolar da faixa, com seu estilo criativo e inquieto de complementar as levadas. Já a segunda começa calminha e cai no maravilhoso refrão quando menos esperamos. Os versos possuem uma interpretação soulful de Mosley, que dita o suingue sem precisar de outros instrumentos de reforço. Temos um ótimo solo de baixo ainda, com harmônicos e wah-wah, técnicas vanguardistas até demais se você considerar que ele toca um baixo acústico. Só por essas duas, você já teria motivos suficiente para adorar este álbum, mas se quiser mais motivos, temos: o soul/funk de “LA Won’t Bring You Down” – com direito à participação ativa dos metais e do órgão -, o soul alegre de “Shadow of Doubt”, os solos e a timbragem diferentona do baixo em “Tuning Out” e as influências latinas de “Young Lion” e “Fire”.

Uprising é um álbum que merece a compra da cópia física. Tenha-o em suas mãos, guarde em sua prateleira, depois tire para olhar a ficha técnica fantástica e acompanhar o álbum com as letras. Completo talvez seja uma boa palavra para descrever este trabalho, que apresenta nuances diversas e passeia pelo riquíssimo universo de referências do jazz e da música negra americana. Um discão para proporcionar uma experiência viciante.

Isso ocorre em grande parte porque Mosley é um baixista virtuoso, mas é também um vocalista ágil. Sua voz aqui preenche todas as lacunas e trabalha bem para cumprir o objetivo proposto. Seus solos malucos de baixo, nos quais ele alterna o arco com os dedos, junto com as performances sempre acima da média de Tony Austin, fazem a cozinha ser sim a parte mais especial da casa, bela e a mais funcional. Mas é impossível resenhar um disco dessa galera sem falar bem de todos os integrantes. É perfeita a sinergia deles e como se esforçam para favorecer as canções, independente da proposta. Se em propostas mais malucas, como as do The Epic e as do Cameron Graves, eles se dão bem, aqui, em uma que favorece a acessibilidade, os músicos se adequam muito bem também.

Se a ideia de Kamasi no seu disco foi fazer algo mais espiritual, Mosley fica com a parte secular/mundana, abordando as efemeridades e engrandecendo os aspectos cotidianos da vida. É assim quando ele fala de vencer em meio à dificuldades em “Abraham” ou de simplesmente encontrar a força pra levantar pela manhã em “Shadow of Doubt”. Aliás, outro desses aspectos cotidianos é a necessidade de um som que fale diretamente, sem rodeios e/ou muitos floreios instrumentais e líricos. Mosley entrega isso, com um som ideal para unir públicos, encantá-los e fazê-los se mexer. Uma das melhores produções musicais do ano, com certeza.

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1 comentário em “Miles Mosley – Uprising (2017)

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