2017 Folk Resenhas Rock

Roger Waters – Is This The Life We Really Want? (2017)

O idealista inquieto

Por Eder Albergoni

Sabem aquela história que enquanto os outros integrantes do Floyd curtiam suas Ferraris e férias jogando squash, Roger Waters se trancava no estúdio pra finalizar Wish You Were Here, tomando a frente definitiva na banda? Lembram daquele show da turnê de Animals em que o Waters cuspiu num fã que tava tirando ele do sério? E de quando ele disse que não precisava do nome Pink Floyd? Esse é um disco político, sem sombra de dúvida. Mas também é um disco de redenção particular. Não um mero pedido de desculpa, apenas. É sobre a criação da figura que Roger ostentou e que agora precisa descansar.

Roger Waters

O disco começa com elementos que remetem diretamente à fase Dark Side of the Moon e Wish You Were Here e desemboca numa divagação sobre como seria ser Deus e ser drones. Logo ele, o sujeito que se reconhece pomposo e afetado, preso nesse ciclo de fugir dele mesmo e ser melhor. É uma parede que se fecha em sua auto-análise. Ele precisa se afastar dessa sensação, por mais que ela se repita. Então Roger canta uma canção pra ele mesmo em “The Last Refugee”, mostrando seus medos e inseguranças, soando extremamente pessimista ao dizer que hoje você pode entrar no mar com seu iPhone, mas que o mundo na verdade é igualzinho ao que era antes.

O que era antes tá escancarado em “Picture That”, uma releitura semigêmea de “Sheep”. Waters lança seu idealismo citando cidades, estados, países, líderes, a coisa toda séria e real. A noção de uma guerra velada e de um apocalipse econômico, mais o enfrentamento com o sonho americano e seus ossos quebrados à mostra, são momentos explícitos. “Is This the Life We Really Want?” e “Bird in a Gale” são músicas tensas, carregadas de ansiedade e paranoia num nível que nem Animals alcançou. A bronca sobra outra vez para as TVs, mais especificamente os reality shows.

Isso é, de novo, muito mais sobre ele do que sobre vislumbrar a queda de um muro. Is This the Life We Really Want? é um sucessor natural de Amused to Death (1992, último disco de rock de Waters). A diferença é que daquela vez os horizontes se abriam e as fronteiras ganhavam doses de otimismo. Quando se recorre a Animals e sua mitologia para passar o mesmo recado é que talvez não tenhamos ouvido com atenção da primeira vez. O que é um cuspe na Era da pós-verdade?!

E Animals é tudo que se acha em “Smell the Roses”. Todas as programações e ruídos são característicos daquele álbum. E mesmo a construção das letras e sua poesia, o ritual kantiano sobre transcender e a lucidez da desconexão que existe entre tantas partes interessadas colocam Waters no último nível de um inception infinito. Em meio a harmonias e solos, suas matizes e timbres, Roger coloca no capitalismo o peso desse mal, feito como um novo deus que esmaga a justiça e a democracia, como quem não aceita uma flor ou apaga sua essência, contrário à manifestação. Is This The Life We Really Want? analisado da maneira correta pode tanto ser uma aula de política, quanto uma aula de filosofia.

“Wait For Her” é a segunda parte de “Déja Vu”. Ali ele reconhece suas falhas. O que vem em seguida é um testamento, o final apoteótico para um homem egocêntrico. Essa passagem abre em um tom melancólico e evolui com colagens quase fúnebres. A aurora do homem encontrando seu desfecho é o que mais aproxima Is This the Life… de Amused to Death. Roger lança sua própria vida como ferramenta de pesquisa, finalizando assim uma obra muito importante, mesmo que não tenha a pancada sonora do seu antecessor.

Como um personagem de O Grande Truque, filme de Christopher Nolan lançado em 2006, Waters é o artista que se transforma totalmente para viver o seu grande truque. Essa persona agora, um senhor de 73 anos, já deve ter se arrependido algumas vezes, olhado pra trás e pensado em suas histórias, colocando sua perspectiva à frente de seus passos, comparando realizações com as de seus colegas, tentando encontrar um paraíso para mirar. A minha impressão é que esse é o The Division Bell (1994) de Roger Waters. Um tratado de resolução, o tesouro achado do outro lado do prisma.

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1 comentário em “Roger Waters – Is This The Life We Really Want? (2017)

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