Chuck Berry – Chuck (2017)

Disco celebra o nome e a carreira do icônico músico do Missouri

Por Gabriel Sacramento

Quando Chuck Berry anunciou aos 90 anos que iria lançar um álbum, todos ficamos surpresos e curiosos. Mas quando, depois de sua morte, pudemos ouvir o primeiro single – “Big Boys” -, a curiosidade diminuiu um pouco e percebemos que estava tudo em casa. Afinal, aquele riff e frases de guitarra que foram imortalizadas pelo guitarrista em canções sensacionais como “Johnny B. Goode” e “Roll Over Beethoven”, reaparecem nesta, como uma espécie de homenagem de Chuck para ele mesmo. Muitos ouvintes podem achar incômodo a repetição de ideias, mas não é algo novo na carreira do músico. Quem conhece seu catálogo já deve estar um pouco mais acostumado.

“Big Boys” impressiona por ser aquele rock’n’roll dos anos 50 mesmo, só que sem guitarras saturadas e baterias abafadas. O lance são os timbres maravilhosos e modernosos dos instrumentos, mesmo que com arranjos totalmente ambientados na década de ouro do estilo em que Chuck foi pioneiro. A bateria bem timbrada foi bem executada pelo Keith Robinson e as guitarras contaram com Nathaniel Rateliff e Tom Morello. Com certeza foi uma honra para esses caras tocar com o mestre que definiu a forma como seriam as coisas no rock e captou o espírito da juventude que queria ser livre, transformando sua música em uma boa oportunidade para se reunir com os amigos, dançar e esquecer o mundo e os problemas porta afora.

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Aí, lançaram também “Lady B. Goode”, faixa que referencia “Johnny B. Goode” desde a estrutura musical até a letra – que continua a saga do personagem Johnny, sempre recorrente nas histórias do cantor, desta vez falando sobre a mulher dele. Mais uma vez a impressão é de que o velho Chuck queria homenagear a si mesmo, com essas canções que gravou em mais de uma década – de 1991 a 2014 -, para dar uma conclusão à sua carreira. Infelizmente, ele não conseguiu ver o disco ser lançado, deixando todo mundo já meio nostálgico desde sua morte em março.

A sequência daquele que pensávamos ser o último – o bom Rock It (1979) – ainda possui “Wonderful Woman”, faixa que conta com o talentoso Gary Clark Jr. nas seis cordas. É um rockzão classudo, com gaita, vários solos, melodias típicas e cinco minutos de duração – que podem ser cansativos para alguns ouvidos. É uma oportunidade interessante de conferir um representante da geração pioneira do rock e um da geração atual dividindo o mesmo espaço. Temos também “Dutchman”, com uma proposta diferente: um ritmo forte pontuado pelo baixo, com um riffzinho de guitarra e o vocal do Chuck em um estilo declamatório, contando uma história. A ideia do vocal lembra um pouco o que o Leonard Cohen fez em seus últimos discos e quem curte o canadense vai adorar isso aqui.

Temos algumas faixas blues clássico do estilo de Detroit, como “Eyes of Man”, “Darlin’” e “You Go to my Head”, com aquela estrutura harmônica e desenvolvimento melódico típicos de centenas de outros blues por aí. “Jamaica Moon” lembra “Havana Moon”, faixa do primeiro álbum de Berry, com uma vibe bem tropical. Temos ainda um blues especial em 3/4 com o compasso impresso no título, “3/4 (enchiladas)”.

Depois de ouvir todo o álbum do Chuck, chegamos a conclusão de que o músico foi bastante inteligente quanto ao que veio a ser o seu lançamento póstumo e definitivamente o seu último. A estratégia foi tentar novas ideias, com moderação, mas referenciando bem toda a sua carreira e seu nome que é muito representativo dentro da indústria musical. Carreira essa que inclui tanto a definição da forma do rock’n’roll nos anos 50 e nos anos posteriores, influenciando todo mundo que veio depois, quanto a importância para a cultura pop, sendo trilha das loucuras de Marty McFly em uma viagem no tempo ou de uma dança maluca de John Travolta e Uma Thurman em um restaurante temático. A música de Berry é inesquecível, diante de tudo que nos instiga, seja vontade de dançar, de fazer air guitar, duck walk ou simplesmente de assistir aquele clássico do cinema que marcou nossa vida.

Por isso, Chuck é um disco nostálgico. Na verdade, seria difícil imaginar algo diferente vindo de alguém de uma geração tão antiga, mas tão seminal e tão importante para diversas outras gerações. Mas também é um esforço da lenda americana em mostrar algumas coisas novas que ele aprendeu com o passar do tempo. O fato do músico estar bem velho quando começou as gravações e durante todo esse período em que elas ocorreram, justifica o fato de ser arrastado, lento e possuir mais faixas blues do que necessariamente rock’n’roll. De qualquer jeito, ele dominava o blues como poucos também, sendo total autoridade para aplicar o estilo. E as faixas mais energéticas são suficientes para nos fazer lembrar dos momentos de ouro do showman e criar a imagem na nossa mente dele fazendo o duck walk enquanto gravava as faixas no estúdio.

Descanse em paz, grande Chuck Berry.

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