2017 r&b Rap/Hip-Hop Resenhas

Joey Bada$$ – All-Amerikkkan Bada$$ (2017)

Agora sim: hip hop como ferramenta de expressão social

Por Gabriel Sacramento

Felizmente, o rap consciente tem se tornado comum nas produções musicais de hip hop. Diversos artistas têm se levantado inconformados com o cenário em que vivem e usado o rap como arma para atingir os indiferentes e chocá-los com um pouco do terror e do caos em que o mundo se encontra. Especialmente, os Estados Unidos pós-Trump que em si já dá bastante papo para discos políticos e para canções engajadas. Aliás, não somente os indiferentes, a arma e o veneno do rap desse pessoal busca atingir os governantes também, para mostrar a eles o poder da expressão popular diante das situações desanimadoras que uma determinada configuração política pode proporcionar.

O jovem Jo-Vaughn Virginie Scott, de 22 anos, que preferiu usar Joey Bada$$ para sua vida artística, tem muito a dizer com seu hip hop e o faz da maneira mais direta possível. O garoto ainda dá seus primeiros passos, mas já mostra que é ousado e que está determinado a não aceitar as coisas como estão. Se seu primeiro disco já continha letras políticas, em All-Amerikkkan Bada$$ o rapper decidiu se aprofundar e fazer um manifesto conceitual sobre racismo, política e outras questões.

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O título do álbum já é bastante contundente. Além de ser uma referência ao AmeriKKKa’s Most Wanted, primeiro álbum de Ice Clube, também referencia à Ku Klux Klan. A primeira faixa, “GOOD MORNING AMERIKKKA”, tem quase dois minutos somente e já traz uma série de críticas e reflexões acerca do racismo que impressionam com o nível de maturidade que o rapper conduz o trabalho desde os primeiros segundos. “FOR MY PEOPLE” possui um refrão melódico bem bom, que deixa claro que o disco também se dá bem ao flertar com o R&B, como o Wiz Khalifa no seu auto-intitulado. A faixa coloca mais caldo no coro contra o racismo, mas dessa vez o próprio Joey se coloca como voz importante na luta contra o preconceito.

“TEMPTATION” começa com um discurso – de partir o coração – de uma criança de nove anos de idade, sobre o racismo e o tratamento diferenciado por causa da cor da pele. A canção mescla R&B com hip hop mais uma vez, com melodias efetivas e fala sobre o que ainda não entendemos sobre o racismo: afinal, por que tratar com desrespeito alguém só por causa da cor? Na sequência, temos os dois primeiros singles, que impulsionaram a aceitação do disco. “LAND OF THE FREE” fala sobre liberdade e “DEVASTATED” traz uma visão mais positiva ao álbum – que soa um tanto deslocada do clima negativo reforçado pelas críticas faixas anteriores. A primeira tem uma linha interessante: “Obama não foi suficiente, eu preciso de mais/ E Donald Trump não está equipado pra controlar essa nação”. É Joey respondendo aos que pensam que só pelo fato de Obama ter sido presidente, parte dos problemas da população afro-americana foi resolvida, deixando claro também que o cara enfezado do topete loiro não é uma boa opção.

Joey foge totalmente do estereótipo de rapper gangsta que muitos orgulhosamente adoram ostentar. Ele pensa a música de All-Amerikkkan Bada$$ como forma de manifestar seus anseios, suas preocupações e sua esperança. Esperança de que a redenção virá das pessoas, da mudança de atitude e do hip hop como música capaz de uni-las e dar-lhes algo por que lutar. Em apenas dois álbuns, ele já mostra que tem um grande potencial e que é diferenciado dentro da cena americana do estilo.

Musicalmente, Joey baseia-se em uma abordagem mais old school. Também há momentos mais orgânicos, mas não é seu foco. Suas melodias, que fazem a conexão com o R&B, garantem a descida suave do álbum garganta abaixo, caso as duras críticas dos raps tenham engasgado. Além disso, trabalhando a velha ideia de misturar R&B e hip hop, ele mostra que não está totalmente alheio ao que rola de mais comum dentro do gênero, mas tenta fazer da sua maneira.

Rap necessariamente crítico, com melodias agradáveis e uma simples aplicação das regras quanto aos samples e beats. Ouça e perceba mais uma vez o poder do hip hop como ferramenta de expressão social.

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