2017 Eletronica Pop Resenhas

Dua Lipa – Dua Lipa (2017)

Mais do mesmo deluxe edition

Por Gabriel Sacramento

Lembro-me de ver em algum lugar uma crítica a respeito da necessidade de lançamentos de edições deluxe de álbuns hoje em dia, já que boa parte do consumo se dá por meios digitais – downloads ou streaming. A crítica é válida. Afinal, não seria melhor para os artistas tornar os trabalhos mais enxutos? As audições por meios digitais cresceram e as audições de álbuns inteiros diminuíram, afinal as pessoas estão mais acostumadas a conferirem os singles e seus clipes no YouTube do que parar o que estiverem fazendo para encarar 50 minutos de música ininterrupta. Claro, cabe um parêntesis, versões deluxe são até interessantes quando se tratam de álbuns de bandas clássicas – como o Led Zeppelin que lançou em 2014 uma séries de edições de luxo dos seus discos antigos -, mas seria isso viável para discos de estreia ou discos de artistas novos?

Feitas as devidas considerações acerca deste assunto, vamos adentrar no objetivo principal este texto: o primeiro disco da cantora inglesa de origem albanesa, encarada como revelação pop, Dua Lipa. Começou a carreira postando na internet covers de Cristina Aguilera e Nelly Furtado e entre 2015 e 2016 já fazia bastante sucesso sem nem ter lançado o primeiro álbum ainda. Seu som vai na direção mais pop padrão e mesmo que ela tenha descrito sua própria música como dark pop, sua veia é bem alto-astral e colorida, salvo pouquíssimos momentos mais sombrios.

dua_lipa_2017

“Genesis” já mostra o tom do álbum. Batidas simples, economia de elementos no arranjo e foco na voz da cantora. Mas a interpretação parece deixar algo faltando e não encanta. “Lost in Your Light” tem uma base até interessante, meio distante. A faixa marca a presença do cantor Miguel, com seu ótimo timbre vocal contrastando com a voz feminina. No refrão, as coisas melhoram um pouco e não é tão sem sal quanto a primeira. “Blow Your Mind (Mwah)” e seus vocais dobrados também não surpreendem, não sendo nada diferente de qualquer coisa que já ouvimos no pop moderno. Principalmente porque parece algo que poderia ter entrado no último disco da Meghan Trainor.

“Garden” é o tipo de música que requer uma entrega mais emocional do vocal, necessidade que Dua Lipa acaba não satisfazendo. “Thinking ‘Bout You” troca a instrumentação mais eletrônica por um violão. A canção parece que vai engatar, mas esbarramos, mais uma vez, na falta de uma expressão vocal mais emocionante. “Begging” também é fraca, só não esquecível por causa da base que tem um quê de dream pop, um pouco obscuro até. Por fim, “Homesick” acaba sendo a melhor faixa, com a cantora indo além com seu vocal em termos de interpretação, enquanto um piano sustenta a base. A faixa ainda ganha um vocal masculino ao fundo, novamente oferecendo um contraste interessante.

Dua Lipa foi lançado em versão deluxe no Spotify. Cinco faixas extra, sendo que delas, só uma tem algo realmente interessante a ser destacado neste texto: “Room For 2”, com vocais monocromáticos, ambientados de uma forma diferente, muito na frente na mix, mas com efeitos que mascaram e não deixam tão limpinhos quanto os vocais principais. Além dessa boa sacada, a canção também possui uma batida simples, lenta e marcante, em staccato e com um groove sutil. O resto das faixas da edição de luxo é tão líquido e esquecível quanto boa parte das faixas principais.

E isso nos leva de volta à discussão: é mesmo necessário lançar uma versão deluxe com mais músicas de um disco com um número já satisfatório de faixas (12)? Existem tantos fãs hardcore assim que fazem compensar a produção dos deluxes? No caso da Dua Lipa, a versão traz mais do mesmo do que ouvimos no disco, o que torna a experiência ainda mais penosa e difícil de agradar, pois dá a impressão que ela fica o tempo todo repetindo sua fórmula, que já não é tão rica e diversificada assim.

No mais, além das muitas faixas, Dua Lipa acaba seguindo a onda do pop padrão com bases felizes e dançantes, sem uma renovação de ideias que poderia ser decisiva para animar o ouvinte um pouco mais ou surpreendê-lo. Tudo é muito polido e bem produzido, com um som tão limpo quanto o rosto da cantora na foto da capa, mas o disco parece não querer ser nada além do que simplesmente isso: um disco pop bem feitinho. A “cosmética” acaba superando a capacidade de expressão, afinal.

Sendo seu primeiro trabalho, não sabemos o que será dela no futuro, mas seu sucesso e bom reconhecimento na imprensa – em grande parte por causa dos singles – nos permite supor que ela continuará investindo no pop fácil. No final, o primeiro disco da inglesa acaba sendo um álbum que pode até te fazer dançar ou curtir um pouco em uma audição descompromissada, mas não será lembrado como um álbum de grandes canções.

Dua_Lipa_Pawel-Ptak

Anúncios

0 comentário em “Dua Lipa – Dua Lipa (2017)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: