2017 Eletronica Indie Pop Resenhas

Lorde – Melodrama (2017)

A perda da inocência: a nossa, a da juventude e a de Lorde

Por Lucas Scaliza

Faz quatro anos que Pure Heroine (2013) foi lançado. Chegou como quem não queria nada e foi galgando seu espaço naturalmente. A então jovem Ella Marija Yelich-O’Connor não era nada (nem famosa em redes sociais), mas tinha um disco com produção esperta, um acordo com a Universal e letras ainda mais espertas sobre a juventude. O sucesso a tirou da periferia do mundo pop e da sua Nova Zelândia natal para colocá-la entre pessoas, lugares e festas badalados em Londres, Nova York e Los Angeles. As ~inimigas~ Taylor Swift e Katy Perry viraram amigas de Lorde, a garota dos então cabelos volumosos.

Seria muita inocência de nossa parte achar que quatro anos depois Lorde seria a mesma pessoa e faria a mesma música. Seríamos como os adolescentes em “Perfect Places”, que tomam drogas (lícitas e ilícitas) e fazem sexo para esconder algo que falta a eles. O sucesso alcançado por ela foi estrondoso e uma estrutura de mídia e marketing foi criada em torno de Lorde para atendê-la. Melodrama é mais pop e menos dream pop, de fato. Isso se revela fácil para quem ouvir “Green Light” e tiver ouvidos e coragem para reconhecer que diversas outras partes de outras músicas são bem comuns do pop que se faz atualmente. No entanto, há uma boa quantia de indie e eletrônica que ainda resguardam não o Pure Heroine em si, mas o jeito como Lorde se expressa, chegando a soar alternativa.

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Lorde também não é inocente: teve que dar algo ao mercado, à gravadora e aos fãs que fosse capaz de “moldá-la” a um padrão. Perdeu-se um pouco da originalidade, mas no miolo do álbum existem boas ideias e um fio condutor que fazem Melodrama valer a pena. “Sober”, sobre uma relação que está se desfazendo e como isso fica claro quando o casal não está sob efeito da bebida, é o primeiro vislumbre da Lorde que aposta no diferente e no fora do comum. No mundo ideal – da gravadora -, “Sober” nunca seria um single. “Homade Dynamite” tem uma pega derivada do R&B que a cantora tanto gosta, mas é bem esquisitinha no final das contas, virando umas esquinas inesperadamente.

“The Louvre” é um belo trabalho de produção, procurando, em certo ponto, como emular as reverberações de uma festa real. “Hard Feelings/Loveless”, a música que marca o rompimento que vem se desenhando, é quando o melhor dream pop de Lorde emerge e nos faz reverenciar sua habilidade de fazer uma boa canção que não se rende ao pop fácil. “Write In The Dark” coloca o vocal de Lorde em primeiríssimo plano. No refrão, ela sobe e desce a escala e lembra que sim, é uma cantora e tanto, e que isso também foi um dos fatores que a ajudou a ser uma estrela. Por fim, “Supercut”é a evolução mais natural do estilo oferecido em seu primeiro álbum e lapidado agora para uma segunda obra mais madura.

A história do disco se passa durante uma dessas festas de jovens em uma casa, quando os adultos não estão por perto e os convidados se pegam, brigam, se amam, vão pra cama, bebem e tomam drogas. No meio disso tudo, Lorde rompe com o namorado (ela realmente passou por um grande término nos últimos dois anos), pensa a respeito, vai e volta da festa, e reflete sobre como é estar só. Quem julgar apenas pelas faixas mais baladeiras vai perder toda a parte mais interessante de Melodrama.

Se para construir sua imagem grandes equipes foram contratadas, quase todo o som do álbum foi criado de forma íntima, com Lorde e o produtor Jack Antonoff sendo responsáveis por quase tudo, desde as letras e os acordes até as intervenções eletrônicas. Isso garante que mesmo que nós, a Lorde e a juventude das festas já não sejamos mais tão inocentes assim com a vida, com o amor e com o que a neozelandesa se tornou, sua música ainda reflete sua sinceridade. Talvez de forma não tão criativa e cortante quanto antes, mas ainda assim bastante íntegra.

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3 comentários em “Lorde – Melodrama (2017)

  1. Um dos melhores álbuns de 2017, até agora.

    Lorde e Kendrik vão ter uma briga digna de aclamação no Grammy 2018, rs.

    PS: Quando sai a crítica de Witness da Katy Perry?

  2. Pingback: Katy Perry – Witness (2017) | Escuta Essa!

  3. Pingback: St. Vincent – MASSEDUCTION (2017) – Escuta Essa!

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