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At The Drive-In – In•ter a•li•a (2017)

Continuação perfeitamente natural de Relationship of Command

Por Gabriel Sacramento

Imagina se o Zack De La Rocha cantasse num estilo mais melódico? Pois é, o At The Drive-In satisfez nossas imaginações há 17 anos, com Relationship of Command, um disco que lembrava o Rage Against The Machine, mas apontava para uma direção diferente: o punk, sendo reconhecido como um dos grandes lançamentos do que ficou conhecido como post-hardcore, estilo associado com a onda emo da década de 2000. Tudo bem, o estilo é bem diferente, mas a voz do Cedric Bixler-Zavala permite essas divagações delirantes com relação à voz do RATM.

O sucesso do álbum foi contagiante, mas mesmo assim a banda acabou entrando em hiato no ano seguinte (2001). O resultado foi a necessidade de sobrevivência, satisfeita pela criação de duas bandas, The Mars Volta e Sparta, com os membros divididos entre ambas. No entanto, a história se repetiu com as duas bandas acabando ou entrando em hiato. Restou novamente a necessidade de sobrevivência, que causou, felizmente, o retorno do At The Drive-In.

AtTheDriveIn_2017

Aí o roteiro você já conhece: aquele papo alegre de “estamos com saudades um do outro e queremos voltar a fazer música juntos”. Essa vontade de trabalhar junto fica ainda mais questionável quando ficamos sabendo que o baterista original, Jim Ward, recusou deliberadamente a participar da reunião. Para substituí-lo, os caras convocaram o ex-guitarrista do Mars Volta, Keely Davis. A produção e mixagem de In•ter a•li•a ficou por conta de Rich Costey, que produziu discos do Muse na década passada e mixou Foo Fighters e Audioslave.

Diante de toda essa novela envolvendo bandas e hiatos, para nós, ouvintes, restou a esperança de que o novo álbum fosse tão bom ou até melhor que o anterior. A boa notícia é que esses 41 minutos deixam claro que a banda manteve a boa forma depois de todos esses anos, permanecendo saudável e mantendo a boa e velha identidade. Aliás, ponto também para Rich Costey, que soube conduzir bem essa galera e captou um espírito total anos 2000, como se nada tivesse sido perdido. Quem sabe até como uma forma de recompensar os fãs desapontados com tantos anos sem nada da banda, eles trouxeram um álbum com um sabor de nostalgia que não sai da boca.

Assim, quando ouvimos o coro e a bateria quebrada de “No Wolf Like The Present” ou a pegada post-hardcore mais moderna de “Incurably Innocent”, percebemos de cara que não estamos diante de algo necessariamente novo. Esta última, inclusive, lembra bastante aquelas bandas de PHC que invadiram os EUA em meados da década de 2000. “Governed By Contagions” deixa claro a semelhança do timbre vocal de Cedric com o Zack do RATM, aliás o som é bem parecido com os caras de Los Angeles, a diferença é que o At The Drive-In é mais sujo e com bases propositalmente menos bem definidas. Destaco também as ótimas “Holtzclaw” e “Torrentially Cutshaw”, com uma cozinha super afiada e um entrosamento cirúrgico de toda a banda.

O som da banda texana tem uma característica interessante: diferente da versão mais metaleira do hardcore, como as praticadas por bandas como Hatebreed e Suicidal Tendencies, o At The Drive-In possui uma ênfase no som do baixo e as guitarras geralmente são utilizadas para criar peso e ruído ao redor da noção de harmonia provida pelo instrumento mais grave. E como é punk, o ouvinte é conduzido durante a audição pelas rápidas transições de acordes marcadas pelo baixo enquanto as guitarras ficam mais livres para dançar, explorando harmonias e melodias complementares. As guitarras são bem divididas e às vezes podem segurar a harmonia base também, mas percebemos que essa é uma função essencial do baixo e o instrumento brilha na mix para dar essa ideia ao ouvinte.

O vocal do Cedric varia bem entre o cantado, o “rapeado estilo Zack De La Rocha” e o gritado. A dinâmica do cantor é importante para fazer o disco variar e criar ramificações interessantes dentro da essência e fórmula típica do grupo. Assim, a banda garante a empolgação, o mosh, as cabeças balançando até o último minuto, com um ou outro instante de descanso, para beber água ou algo assim. A volta dos texanos em In•ter a•li•a está imperdível e mostra que eles não perderam nem um pouco do brilho do som de 17 anos atrás. Continua intenso, punk, sujo e ao mesmo tempo melódico. Se você se sente velho por ter percebido que já se passaram quase duas décadas desde o último, não se preocupe: o At The Drive-In vai te fazer se sentir novo, de novo.

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