2017 Folk Indie Resenhas Rock

Kevin Morby – City Music (2017)

Eis a trilha sonora da solidão

Por Gabriel Sacramento

Começo esse texto com uma afirmação segura e certeira: City Music é o mais maduro trabalho de Kevin Morby, não só pelo desenvolvimento natural do artista há anos no ofício – o que acontece com todo mundo -, mas é o seu trabalho solo mais consistente e mais interessante. Tudo bem, as canções de Still Life (2014) são muito boas e muito marcantes, bem como as de Singing Saw (2016), que você já leu por aqui, mas City Music traz uma abordagem sonora típica de alguém que evoluiu na forma como pensa a sua música.

No texto do ano passado sobre o seu álbum anterior, você leu alguns elogios à carreira solo de Morby e como ele tem se dado bem. Misturando os elementos roqueiros e intensos que remetem à sua antiga banda, o Woods, com a solitude típica do folk desértico – que junto com a produção alternativa fica ainda mais atmosférico e distante. O músico conseguiu estabelecer seu nome dentro do circuito folk independente dos Estados Unidos e tem sido uma voz interessante a ecoar e nome de referência a constar nas listas de recomendações.

kevin_morby_2017

City Music apresenta um Kevin muito apegado à suas criações, com boas histórias pra contar acerca de cada uma das faixas. A que abre o disco, “Come To Me Now”, impressiona pela atmosfera esvoaçante que ganha ainda mais densidade do meio para o final, mas que é impulsionada por um órgão antigo que Morby encontrou no estúdio enquanto gravava e decidiu, na hora, incluí-lo. A letra é escrita da perspectiva de uma mulher que passa boa parte do seu tempo sozinha e não gosta do sol, esperando assim pelo surgir da lua. Essa mesma mulher, chamada de Mabel, é personagem de “Tin Can” – canção que possui crescendos fabulosos, dando sempre a sensação de que vai ficar maior e mais pesada – e do longo folk “Night Time”.

Já “1234”, é uma espécie de tributo aos Ramones, com o título fazendo referência à contagem do tempo que os nova-iorquinos costumavam fazer antes de cada faixa. A sonoridade é garageira e suja no estilão bem rock’n’roll como poucas coisas na discografia solo de Morby. Quando transitamos desta para a próxima faixa, “Aboard My Train”, a impressão é que estamos ouvindo outro disco, tamanha é a diferença em termos de timbres e musicalidade. Se o vocal na primeira é sujo e está envolvido na explosão instrumental, o vocal na segunda é limpo, destacado e a base é pequena, com marcações tímidas de baixo/bateria e um piano que dá as caras aos poucos. A canção vai ficando roqueira com o tempo, sempre com marcações fortes de acordes. “Dry Your Eyes” possui uma candura quase soulful, com uma guitarra praieira, uma sensibilidade instrumental incrível, um solo bem bonito e um vocal todo em um lado da mix para dar a impressão de que está sendo cantado bem próximo do ouvido do ouvinte, criando um aspecto intimista. A guitarra e a bateria foram gravados primeiro, e então o vocal e o baixo foram acrescentados. A faixa-título é marcada pelas lindas guitarras harmonizadas, mudanças fantásticas de andamento e pelo vocal insistente de Morby repetindo as mesmas frases. É uma das melhores canções do cantor, com um trabalho de dinâmica especialmente impressionante.

Agora com 29 anos, Kevin Morby está cada vez melhor em seu folk rock. City Music tem conceito, abordando a solidão e como as pessoas se relacionam com as cidades onde residem e com as pessoas ao redor. Como se sentem ao viver sozinhas em um mundo diferente do mundo que existe em seu interior. Para Morby, a música tem muito a ver com isso e ele torna a relação poética entre a solidão e os sons perfeitamente clara para nós.

A introversão de sua música conversa conosco. Afinal, todos nós já passamos por momentos tristes, em que nós preferimos a gritaria das nossas mentes às vozes que saem pelas nossas bocas, e permanecemos inquietos e angustiados. O cantor oferece a trilha sonora perfeita para isso, conectando a atmosfera da sua música com esta sensação perturbadora, apresentando um certo conforto, sensível, sonoro e poético. Um trabalho a ser admirado.

Kevin_Morby-Berlin

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