2017 Eletronica Pop Resenhas

Katy Perry – Witness (2017)

Cantora deixa a adolescência musical, mas falta carisma ao novo disco

Por Lucas Scaliza

Por essa eu não esperava. Após me submeter a sucessivas audições de Witness, em diferentes dias, locais e contextos, minhas reações às novas músicas de Katy Perry foram quase nulas. Me senti apático na maior parte do tempo. Logo eu, que me entreguei à experiência após curtir a música e a letra de “Chained To The Rhythm” (que discutimos no podcast). Logo ela, tão dada a fazer músicas chicletes e poderosas.

É fácil notar o que aconteceu. Katy Perry trocou o ultrapop pelo pop. Músicas muito mais contidas e muito menos catchy é o que encontramos em 80% do álbum. A própria “Witness”, que deveria abrir o disco com os dois pés no peito do ouvinte, não conquista e fica a impressão de que ela quis soar mais adulta, deixando para depois a tarefa de fisgar a audiência. Mas são pouquíssimos os momentos em que nos sentimos engajados pela cantora.

katy_perry_2017

Katy Perry é amplamente conhecida por transformar seus álbuns, clipes e shows em enormes parques de diversão, construindo uma Disney própria em que um pouco de libido é permitida, mas sem perder de vista a fofura de unicórnios e sereias da moda. Witness não compactua bem com isso. Por um lado, seu pop ainda é acessível e tornou-se mais maduro, ainda confiando no trabalho de produção eletrônica (com influências de house noventista, R&B, EDM topzera) e em algumas levadas orgânicas bem sacadas. De outro, falta o carisma que ela esbanjava em Teenage Dream (2010) e até em Prism (2013) e possui linhas vocais exigentes que nunca sabemos ao certo se ela realmente consegue reproduzir sozinha em cima do palco.

“Hey Hey Hey”, coescrita pela Sia e com backing vocals da norueguesa Astrid S, tem a pretensão de ser um hino ao empoderamento feminino. Já “Swish Swish”, com participação de Nick Minaj, é um morteiro que mira cabeça de trolls e haters. O texto de “Power” procura dar força às mulheres para que saiam da sombra de homens que não as deixam mostrar a capacidade que têm. “Chained To The Rhythm”, a mais poderosa do repertório do álbum, é um retrato bem feito de nosso mundo. Claramente inspirada no governo Trump e em sua retórica da pós-verdade, é a canção que mais se aproxima do ultrapop de outrora e se aproveita de um rap bem feito de Skip Marley, neto de Bob Marley. E “Bigger Than Me” foi inspirada na derrota presidencial de Hilary Clinton.

Em um universo de 17 canções, são essas que vêm com alguma carga política ou procurando a lacração de alguma forma. Ainda temos “Tsunami” e “Bon Appetit”, ambas sobre sexo e a forever teenage “Act My Age”. O restante são canções sobre relacionamentos passados e questões pessoais. É ótimo que os temas de Perry tenham ampliado horizontes, mas Witness está longe de ser um disco crítico (e estiloso) como Humanz, do Gorillaz, ou o álbum pop engajado do ano. E mesmo quanto às questões pessoais, está um degrau abaixo de Melodrama, da amiga Lorde.

No cerne dos acertos e erros do álbum está o compositor e produtor Ali Payami, sueco e descendente dos persas iranianos que já trabalhou com The Weeknd, Tove Lo, Ellie Goulding, Taylor Swift e Ariane Grande. Ele produziu, tocou praticamente todos os instrumentos do disco e fez as programações. Se gostar do resultado final, faça uma reverência a ele. Se, como eu, achar que faltou construir pontes mais carismáticas com o ouvinte, culpe a ele também. Em discos assim, que contam com uma equipe de compositores e arranjadores, Katheryn Hudson não pode ser responsabilizada sozinha.

Witness mostra que Katy Perry chegou a maturidade, sim, e que pode começar a trilhar uma nova fase. Embora um orgasmo possa ser comparado a um tsunami, não dá para dizer que se este álbum “chegue lá” tão bem. De fato, ao terminar, a gente quer logo olhar o que mais há por aí e não sentimos tanta vontade de repetir a dose. Você queria o tsunami, mas só levou uma brisa.

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6 comentários em “Katy Perry – Witness (2017)

  1. Gosto muito da suas críticas Lucas (podcast principalmente), mas confesso que achei essa um pouco “preguiçosa”. Você é um exímio escritor, mas talvez não tenha curtido MESMO o álbum. Ficou uma opinião meio vaga e corrida.

    Apenas uma crítica construtiva 🙂

    Adoro o site

    PS: Gostei muito do disco, mas acho ele um tanto irregular da 2° parte pro final.

    Abs

  2. A única que gosto, depois de odiar, mas de tanto escutar viciei é a “Swish Swish” mesmo… talvez seja o sample de Star 69, mas gosto da batida house 90’s, funciona na dancefloor… o resto dispenso.

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