2017 Folk Indie r&b Resenhas Soul

James Vincent McMorrow – True Care (2017)

Uma viagem sonora pelo soul e R&B interestelares

Por Gabriel Sacramento

Muito tem sido discutido sobre a transição de James Vincent McMorrow de um som mais folk para algo mais soul e R&B alternativo, com fortes interferências eletrônicas. Porém, o que muita gente pode não saber é que o músico nunca quis deliberadamente soar folk. Ele mesmo afirma que apenas fez o que pode com os recursos limitados que tinha e aquilo acabou soando como folk.

Claro, como ouvintes que tentam conceber a proposta musical de McMorrow, não podemos desconsiderar seu jeito para fazer folk, bem evidente nos primeiros álbuns. E se ele mesmo não tinha em mente esse resultado, acabou chegando a ele com competência e uma qualidade que fornece uma experiência auditiva bastante satisfatória, até para ouvidos acostumados com o gênero e suas nuances.

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Dito isso, fica mais fácil compreender que à medida em que o músico cresce na carreira, ele se afasta da veia inicial. Seu novo álbum, True Care, soa também diferente de We Move, disco do ano passado que tinha um forte apelo pop e soava bem R&B alternativo. True Care vai por um caminho mais expansivo, abordando elementos espaciais e soando um pouco mais experimental que o anterior, com o músico irlândes abusando dos sintetizadores para criar camadas cheias e densas, que abrigarão seus vocais.

Esse desejo por expansão também fica evidente com o uso de timbres esquisitos e diferentões. Como em “Thank You”, com sintetizadores envolventes e elementos instrumentais interessantes, preenchendo tudo com um nível detalhamento tão interessante quanto o nível de competência em compor todos esses detalhes. Ainda temos a sua guitarra complementando tudo e um quê de R&B. Se tivesse de escolher duas músicas chave para o álbum, seriam “National” e “True Care”. A primeira começa com um piano que acompanha a melodia do vocal, lembrando o Sampha em “(No Ones Knows me) Like the Piano” – uma das melhores faixas do ano. A interpretação de McMorrow é extremamente emocional, conferindo uma sensação de intimidade com o ouvinte. A segunda começa com os vocais aveludados do cantor ressoando por todo o espaço das nossas cabeças e ganha base instrumental densa, fortemente sintetizada e com uma timbragem especialmente esquisita, no melhor sentido da palavra, mas que poderia simplesmente arrancar um sorriso de Frank Ocean.

Se você, depois de algumas faixas, ainda não sacar a veia espacial e onírica do álbum, os interlúdios fazem questão de deixar isso bem claro. “Constellations” é outra faixa que, desde a manipulação dos sintetizadores da base à interação vocal-instrumental, remete totalmente ao Process do Sampha. As coisas continuam densas em “Holding on” e “Bears”, que não escondem a influência de soul no jeito como se desenvolvem. “Bend Your Knees” também deixaria qualquer cantor de R&B alternativo bem empolgado, tamanha é a sua facilidade para simular algo mais suingado, sem necessariamente entrar nos clichês e padrões do estilo.

Com o auxílio de uma produção esmerada e com os seus sintetizadores, James conseguiu criar um álbum viajante, climático e que foge das fronteiras, indo além tanto do folk quanto do R&B ou soul, mas aproveitando boas ideias desses gêneros. As melodias não tem tanto apelo comercial como as disco do anterior, mas são bem trabalhadas em músicas bem acabadas, por isso ganham destaque.  É um disco que nos coloca diante da possibilidade de viagens interestelares cheias de aventuras, perigos e recompensas. Enquanto lutamos contra as naves espaciais inimigas, tentando sobreviver, McMorrow nos guia com sua voz suave e seu disco vai traçando a rota.

Dá para ao menos especular que quando pende para o folk, James soa como algo próximo do que Ray LaMontagne tem feito em sua nova fase. Quando pende para o R&B fora da caixa, ele soa um pouco como um Frank Ocean ou Sampha. O irlândes mistura bem o aspecto sonhador com as manipulações eletrônicas experimentais da versão mais moderna do R&B, chegando a um híbrido interessante e imperdível. Foi assim também com o We Move inclusive, só que agora ele está ainda menos preso à necessidade de permanecer em baixas altitudes.

Se a humanidade acabar realmente tendo que povoar outros planetas, eis uma boa trilha para a dramática viagem. Esteja certo de embarcar com os fones de ouvido.

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