2017 Eletronica Pop Rap/Hip-Hop Resenhas

Vince Staples – Big Fish Theory (2017)

avant-garde-eletronic-hip-hop

Por Gabriel Sacramento

Quando perguntado sobre o novo álbum, sucessor do Summertime ‘06, Vince Staples chegou a mencionar um termo chamado afrofuturismo, que em suma, representa um conceito que combina ficção científica, histórica, fantasia e cultura negra. O George Clinton gostava de brincar com isso em suas bandas Parliament e Funkadelic, trabalhando com temas diferentes do comum e da ideia de arte mais, digamos, verossímil. Porém, numa entrevista mais descontraída, Vince disse que o álbum não seria realmente fundamentado com base nesse conceito, mas que ele apenas escolheu o termo aleatoriamente para ter algo pra dizer.

Um brincalhão, pra variar.

O novo álbum ganhou o título Big Fish Theory. E a teoria que o título trata é bem interessante. É a teoria que diz que um peixe só cresce até o tamanho do tanque que o comporta. Ou seja, ainda que cresça, não será tão grande, pois algo o limita. A ideia pode ser associada com muitas coisas, inclusive com a situação dos afro-americanos diante da falta de oportunidades para desenvolverem seus talentos e irem além. Mesmo não necessariamente desenvolvendo o tema em seu álbum, sua mensagem começa sem nem precisarmos abrir o encarte, com o título servindo de uma boa chamada à reflexão.

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O álbum contém diversos nomes na produção e participações de peso como Kendrick Lamar, Juicy J, ASAP Rocky e Damon Albarn. A ideia do músico foi de fugir um pouco do hip-hop mais comum do seu primeiro álbum e fazer algo diferente que obedecesse sua filosofia pessoal de perseguir a mudança e de não continuar buscando a mesma sonoridade. No twitter, ele logo avisou que o álbum foi feito para ser ouvido em um equipamento adequado por causa dos graves. E é verdade, junto com as influências do techno de Detroit, aquele do final dos anos 80 que tinha uma veia futurista e fria, Staples investiu em graves robustos para as bases de seu álbum, servindo de cama sólida e resistente para que ele e seus convidados passeiem livremente com raps e melodias.

A primeira faixa, “Crabs in a Bucket” já antecipa uma abordagem mais eletrônica, com a base mudando ao longo da faixa e surpreendendo pelos ótimos timbres. Aqui, percebemos que a parte instrumental ganha um destaque maior que ganharia em qualquer faixa mais comum do gênero e a sensação é que os timbres competem com os vocais pela atenção do ouvinte. “Big Fish” traz uma pegada que lembra o hip-hop de dez anos atrás, com uma letra que fala da sua vida e de como o rap a mudou para melhor. Juicy J empresta seus vocais nesta. “745” lembra o feel das faixas do Thundercat no seu álbum mais recente. “Yeah Right” surge com seus graves soberbos e profundos e ainda conta com participação da Kučka e do Kendrick Lamar. Ao longo da faixa, podemos ouvir alguns sons meio industriais bem proeminentes, que evidenciam o nível de experimentação eletrônica que Vince explorou aqui.

“BagBak” é rap em cima de samples eletrônicos bem loucos, já “Rain Come Down” é um dos poucos momentos em que temos um destaque maior para as melodias, com o Ty Dolla $ign fazendo os vocais cantados. A base segue a ideia das outras do álbum de ser totalmente fora da caixa e diferentona. Em “SAMO”, Vince fala de fazer a mesma coisa, do mesmo jeito e ter que falsificar sorriso para câmeras, apenas pelo dinheiro. O que é algo que ele diz não gostar, já que critica enfaticamente artistas que se acomodam na repetição das ideias. Nesta também temos timbres industriais bem interessantes, como vários metais sendo utilizados para gerar sons bem intrigantes.

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Com Big Fish Theory, Staples não esconde sua pretensão de virar o hip-hop de cabeça pro ar. O rapper aborda elementos da música eletrônica, indo mais profundo no uso de samples e sintetizadores, para criar algo que soa experimental, futurista e avant-garde para os nossos padrões atuais. Ele não somente coloca holofotes no próprio nome, mas chama a atenção para a possibilidade de ser extremamente criativo dentro do gênero, sem deixar de erguer as bandeiras típicas e de falar a linguagem típica.

Além de seu trabalho mais interessante, o disco confirma as expectativas de quem esperou pelo seu álbum depois de conhecê-lo quando ouviu “Ascension”, uma das melhores faixas do Humanz do Gorillaz. O feat. com certeza serviu para isso e estes ouvintes com certeza devem se sentir totalmente satisfeitos com a proposta do rapper de Chicago em seu disco – pensando diferente e perseguindo incansavelmente o som da sua cabeça, que ele mesmo diz que é impossível alcançar.

Se o Jamiroquai se destacou esse ano, misturando como poucos a frieza do eletrônico, o futurismo sci-fi e o velho groove do acid jazz, Vince Staples se destaca por misturar a frieza, o aspecto futurístico e o bom e velho hip-hop dos versos críticos e das colaborações entre amigos. Staples consegue desempenhar uma função de bom intérprete: conversar com distintos públicos de distintos lugares e convidá-los todos a consumir o seu produto. Experimentando bastante, ele segue mandando a real, sem esquecer de fugir um pouco da realidade.

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2 comentários em “Vince Staples – Big Fish Theory (2017)

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