2017 Pop Rap/Hip-Hop Resenhas

Jay-Z – 4:44 (2017)

Rapper mostra lado mais vulnerável e faz hip hop com samples de rock progressivo e balanço

Por Lucas Scaliza

Um disco novo do poderoso Jay-Z, originado de uma polêmica marital lançada pela poderosa esposa, Beyoncé, em seu Lemonade, só poderia chegar carregado de significados e pretensões. A começar pelo título. Capítulo 4, versículo 44? De que livro? De qual evangelho? O Evangelho segundo Shawn Corey Carter? Pode muito bem ser a sua versão dos fatos, embora a história “oficial” diga que o rapper acordou um dia às 4h44 e escreveu a faixa-título do disco e depois gravou os vocais em casa mesmo, usando o microfone da esposa.

Embora faça referências suficientes ao Lemonade para ser considerado um álbum de resposta, 4:44 acaba falando de outros assuntos que não tem a ver com a dinâmica do casamento. Porém, sabemos que um disco de Jay-Z levaria algum tempo para ficar pronto e contaria com um time de produtores e participações. Mas 4:44 foi feito de uma forma mais despojada, contando apenas com o bom trabalho do produtor No I.D. e produção adicional do próprio Z. Ou seja: é um disco feito para ser a contraparte de Lemonade. Caso o disco que Beyoncé lançou em 2016 não existisse, aposto que o novo de Jay-Z seria uma besta completamente diferente.

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Não são os 36 minutos de música mais inspirados que o rapper já produziu, mas é interessante mesmo assim. Para começar, ele confia demais em samples, mesmo o hip hop dos últimos anos tendo se distanciado dessa fórmula (Kanye West é uma exceção). Daí temos dois samples de Nina Simone (em “The Story of O. J.” e “Caught Their Eyes”), Steve Wonder (em “Smile”), Funk Inc. e Sister Nancy, entre outros. Já as participações especiais de vulto se resumem a Damian Marley, Frank Ocean e a esposa.

A princípio, No I.D. recusou o trabalho com Jay-Z dizendo que não tinha boas ideias para contribuir. Mas acabou encontrando inspiração em discos importantes de Marvin Gaye, Nas, Kanye West e o próprio clássico The Blueprint, de Jay-Z. Daí então um novo senso de hip-hop floresceu e, de fato, a maior contribuição de 4:44 para o estilo neste momento é utilizar o swing para um hip-hop que soe tanto alternativo, com boas levadas quebradinhas (“Caught Their Eyes”, “The Story Of O. J.” e a ótima “Legacy”), batidas profundas e suaves (“Smile”) e boas construções de harmonia (“Kill Jay Z”), como também dançante e cheio de balanço (“Marcy Me” e “4:44”). O álbum também vai e volta no tempo, ora nos dando texturas modernosas, ora nos jogando ao passado reinterpretado pelo hip hop way. Samples de instrumentos de sopro também aparecem aqui e acolá para dar uma mexida nas coisas e entregar uma textura ainda mais diferenciada do que o rap de 2017 já viu.

Uma das inspirações de No I.D. foi justamente o ambicioso My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010), de West. E assim como West abriu o disco com uma canção que sampleava a banda de inglesa de rock progressivo King Crimson (um tanto obscura para o público de hip hop americano), 4:44 se utiliza da obra do grupo de música experimental e progressiva Alan Parsons Project (na faixa inicial do disco) e pedacinhos da música “Todo o Mundo e Ninguém”, do grupo de rock progressivo português Quarteto 1111 (em “Marcy Me”, outra das melhores do álbum).

Talvez seja um dos discos mais pessoais de Jay-Z. Falar sobre família, assumir erros e dizer que pretende se acertar na vida publicamente não é para todos, mas nem de longe é algo que só ele faz. A história da música está cheia de álbuns reveladores e íntimos, só não tínhamos visto Jay-Z ainda sob uma lupa tão apurada (e dá-lhe Lemonade mais uma vez, que é essa lupa no final das contas). Ainda assim, é um passo à frente para ele como homem, marido, pai e músico. 4:44 não é o seu melhor trabalho, mas deixa boas faixas, ideias e novas referências na discografia.

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