Cradle Of Filth – Cryptoriana – The Seductiveness Of Decay (2017)

Os ingleses do metal extremo acertam a mão com porradaria e melodias góticas

Por Lucas Scaliza

Como já é tradição, antes de falar (ou berrar qualquer palavra), Dani Filth sempre inaugura um álbum de sua banda com um gritinho bem agudo, que vem logo depois de uma intro instrumental clássica, gótica, trevosinha. Certas coisas nunca mudam e mais do que estilo, viram uma boa piada que, pelo menos no caso do Cradle of Filth, foi internalizada e até parece que Dani está tirando sarro de si mesmo. Respeito isso.

Apesar de ter lançado um disco fraco em 2015, o Hammer Of The Witches, Cryptoriana – The Seductiveness of Decay restaurou minha fé na banda. Se há dois anos ouvi muitos clichês da música extrema, dessa vez ouvi uma banda bem melhor organizada. Importante notar, mais uma vez, que o Cradle Of Filth tem características únicas de sobra e abusa delas. Então cada álbum está repleto de clichês criados pela própria banda e repetidos sempre que possível. Isso tira um pouco o tesão e torna a audição bastante previsível. Porém, acho que Cryptoriana é bastante competente e mantém o ouvinte empolgado por tempo suficiente, fazendo com que esses clichês sejam notados, sim, mas não se tornem maçantes.

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Se já ouviu uns dois discos da banda, sabe o que encontrar aqui também: coros bem encaixados, baterias insanas, vocais guturais, um clima de fantasia de horror, harmonias e melodias góticas bem ao gosto europeu e um punhado de farofice. O grande mérito do álbum é fazer um black metal com a fluência de um disco de metal melódico – há diversas passagens corais e de guitarra que enaltecem o aspecto emocional da música – e a grandiosidade da estética do metal sinfônico. “Heartbreak and Séance”, é de cair o queixo de tão bem estruturada.

Mas para quem prefere a construção menos direta de canções, “Achingly Beautiful” surge logo em seguida, misturando dissonâncias com teatralidade vitoriana e a voz grave contrastando com os falsetes agressivos de Dani. No entanto, no geral, é impossível descrever cada faixa. Tirando o cover do Anihillator (“Alisson Hell”), todas as faixas têm entre seis e nove minutos de duração e variam muito de tom e tema musical. Passagens de thrash metal dão espaço a momentos mais sanguinolentamente doces e daí voltamos ao metal sinfônico. Até mesmo cavalgadas de baixo e guitarra à Steve Harris aparecem no disco (uma das partes mais legais de “Wester Vespertine”, aliás).

A obra, como sempre, parte de um conceito bastante ligado ao lore de horror da Inglaterra vitoriana e sua ligação com a morte, com forças sobrenaturais e a auto-aniquilação. Se as músicas não são diretas e não obedecem ao padrão versp-refrão-verso-refrão-etc”, é porque a banda tem um papel maior a desempenhar como contadores de história, lançando mão de uma grande gama de ideias em cada canção. Sempre que a bateria de Martin Marthus Skaroupka dá sinais de repetição de seu pulso destruidor, logo o andamento e a dinâmica mudam (“Vengeful Spirit” é um bom exemplo disso) mantendo sua atenção em Cryptoriana.

A banda toda está muito bem, mas Dani Filth merece elogios por colocar para fora mais uma vez todo o seu lado teatral. Ele gosta dessas coisas e não si importa se parece galhofa. Caiu bem neste disco. Skaroupka comandou também as orquestrações e teclados mais uma vez e conseguiu um resultado incrível e equilibrado, sem que violinos e violas cubram as guitarras. Richard Shaw e Marek Ashork Smerda, os guitarristas, vão do thrash ao melódico, fazem belos dedilhados e solos encapetados, aumentando a versatilidade do álbum.

Ainda é música extrema, mas repleta de melodia, o que pode agradar a fãs de metal sinfônico e power metal também. Mas o que fica mesmo de Cryptoriana – The Seductiveness Of Decay é mais um acerto da banda valorizando sua marca, sim, mas a música acima de tudo.

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