2017 Eletronica Indie Jazz r&b Rap/Hip-Hop Resenhas

Tyler, The Creator – Flower Boy (2017)

Kendrick Lamar não é o único rapper que se destaca atualmente

Por Gabriel Sacramento

Na resenha sobre o Vince Staples você leu sobre um cara que busca tornar o hip hop inventivo dentro de si mesmo, com livres experimentações e flertes mais profundos com a e-music. Neste texto, vos apresento a um outro jovem rapper americano que segue a mesma ideologia, mesmo que não o faça da mesma maneira. Tyler, co-fundador do coletivo Odd Future, segue nessa empreitada desde seu primeiríssimo disco, lá em 2011, quando tinha apenas 20 anos. Desde então, está ficando cada vez melhor, por benefício da repetição – mesmo que repetição não seja uma boa palavra para descrever o que o rapper californiano tenta fazer com sua música.

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Flower Boy é o seu quarto disco, no qual o rapper mantém o controle criativo, assinando a produção do álbum. Ele também criou a arte do álbum, uma capa bem interessante, com o rapper, flores e abelhas voando. “Foreword” apresenta uma base nada típica para hip hop, com instrumentos orgânicos e um bom groove de fundo. “Who Dat Boy” foi um dos singles e tem os vocais do rapper A$AP Rocky, junto com o Tyler. A faixa mostra um jeito de pensar bases diferente do padrão, mesmo que não seja tão inventiva. “Pothole” é uma faixa que lembra o estilo cool do BadBadNotGood e traz a participação de Jaden Smith, filho de Will Smith. “See You Again” é uma das mais legais do play, com vocais melódicos do próprio Tyler e da convidada Kali Uchis. “I Ain’t Got Time” Tyler começou a compor quando estava no estúdio de Kanye West trabalhando em The Life of Pablo (2016). A faixa caracteriza um vocal mais agressivo em que o rapper fala sobre as pessoas que se aproximam dele com interesse em seu sucesso.

“911/Mr. Lonely” é bem jazzy e Tyler brinca com a base sampleada mais comum na segunda parte e uma base mais orgânica na primeira. Frank Ocean canta nesta, assim como em “Where The Flower Blooms”, faixa em que o artista compara seu processo de amadurecimento ao de uma flor (o que dá sentido à arte da capa). O destaque da faixa é seu refrão, marcante e forte. “Glitter” também é bem jazzy, assim como “Boredom”, conduzida pelo teclado e pelos vocais melódicos grudentos. “Garden Shed” é uma das mais criativas do álbum, indo de um lounge cool mais intimista à momentos mais expansivos, com um interlúdio instrumental em que se sobressai a guitarra, tocada por Austin Feinstein.

Quando Flower Boy vazou na internet, muitos rumores começaram a correr de que ele estaria assumindo sua bissexualidade por meio das canções. De fato, há muitas pontas soltas para esse tipo de inferência, mas mesmo assim não se pode afirmar nada com certeza quanto à literalidade desses versos.

O novo disco de Tyler, The Creator é uma boa prova de sua capacidade retórica musical e visão do hip hop. A influência de outros artistas que unem jazz e rap é notável, mas Tyler tenta fazer da sua maneira, desajeitada e, de certa forma, inconsequente. Suas letras não são tão profundas e nem têm um forte cunho sócio-político, mas descrevem o que se passa em sua mente jovem, que ainda tenta descobrir seu espaço no mundo, enquanto tenta não ser engolido por ele. É honesto, mesmo que não seja tão bem elaborado.

O alternativo na música do Tyler é alcançado pelo conjunto de detalhes e sons diferenciados e pela sua forma de estruturar as canções, fugindo da forma mais engessada de um rapper mais conservador como o Future. Os detalhes são muitas vezes imperceptíveis em uma audição mais corrida, mas são fundamentais para definir o conceito do álbum. E mesmo que traga idéias modernas e vanguardistas em seu núcleo, Flower Boy é um disco que reverencia bem a veia hip hop mais clássica.

Por fim, vale ressaltar que o álbum é menos experimental que Cherry Bomb (2015). No anterior, Tyler parecia estar inquieto em busca do som perfeito, da experimentação chocante, de evidenciar ao máximo o que torna a sua música alternativa. Já neste, o músico parece menos ansioso, mais melódico, seguro do que seu nome representa e de como a qualidade do seu trabalho é reconhecida pelos fãs e ouvintes. Na inquietude, ele acertou. Na quietude também. Um ótimo disco para quem pensa que o Kendrick Lamar é o único rapper que merece destaque atualmente.

ASAP Rocky In Concert - New Orleans, LA

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1 comentário em “Tyler, The Creator – Flower Boy (2017)

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