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Grandfúria – O Sopro e O Momento (2017)

O sopro do acordeon e a fúria da guitarra

Por Eder Albergoni

A música pop é uma coisa engraçada. O que é mais pop e ao mesmo tempo mais segmentado que música tradicional/ regional? No caso, a música gaúcha, pra quem entende a referência, é a própria ilha da Sbórnia, quase isolada das grandes capitais. Mas isso é uma convicção ultrapassada, um tipo de preconceito com essas raízes que fogem do óbvio. As massas controladoras sempre afastaram com afinco essa manifestação cultural, inclusive. Então voltamos ao velho assunto da serventia da internet e as distâncias sendo reduzidas.

O Sopro e o Momento é o segundo disco da Grandfúria. Cada segundo dele é como se a gente estivesse ouvindo uma história da mitologia gaudéria. Todas as letras reforçam a posição, não há como duvidar de tal luta. Chega a ser épico que em 2017 uma banda consiga determinar, estabelecer e abranger um conceito que remete inicialmente aos primeiros discos dos Engenheiros do Hawaii, sem que aja conexão maior que o gentílico.

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Não se trata de comparações, por vezes a banda soa como as conterrâneas e contemporâneas, Fresno, Tópaz e Vera Loca, mas de discurso. A primeira parte do disco deixa bem claro qual é a porrada. Mas é em “O Viajante” que a Grandfúria começa a mostrar o que pode realmente fazer. Se existe uma ponte da ilha, aqui eles tratam de reforçar as bases onde se seguram. Tudo o que a guitarra e o acordeon pavimentaram, a melodia que se torna mais pop inaugura a conexão total com o lado de cá. E o que vem a seguir, em “Cada Pedaço”, serve de cartão de memória. Os Pampas ganham ares de Game of Thrones.

A questão fundamental desse disco é entender essa guerra entre o fundo e a frente, o arcaico e o atual. A fúria pode não passar de um choro que ecoou mais alto, mas ao não desistirem do discurso, outra vez ele salta aos ouvidos atentos. Sem nenhum efeito estético, a banda exalta a música gaúcha como um todo em “O Espanto e a Fúria” e anota o grande êxito da travessia. “Tormenta” é mais um momento de destaque do disco, em que guitarra e acordeon se juntam e causam uma agradável surpresa.

A parte final traz “A La Cria”, que soa raivosa: “O tempo é o prego do caixão”, “Maldito seja o teu lugar”. Não sei se esse é o tom político geral, mas certamente há uma relação, no mínimo, de deslocamento. Ao pé da letra, inclusive, pode-se entender uma manifestação separatista. A certeza mesmo é o retrato de um povo lutando por seus direitos. “Ataque ao Sobrado”, além de contar a parte mais pop dessa mitologia, estabelece em suas linhas esse comando de resistência, seja ao tempo, às mudanças ou ao poder, sem negá-los, mas diminuindo a força da transformação que enterra o que ainda não morreu, seja uma lembrança, um lugar físico, ou uma cultura inteira.

“Fantasma” encerra o álbum enfatizando os argumentos e recursos, trazendo o pop mais pra dentro, criando uma linha quase psicodélica progressiva emulada pelo Guilherme Arantes. O que nos mostra as referências mais amplas da banda e um bom indício pro futuro. O que fica agora é a reverência por um estilo de vida que, fora o óbvio esquecido, sempre rendeu ótimos cenários musicais nessa guerra dos tronos que é a indústria nacional.

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