2017 Resenhas Rock

Alice Cooper – Paranormal (2017)

Alice Cooper continua fazendo um bom trabalho e teve apoio de músicos do U2 e ZZ Top

Por Gabriel Sacramento

Alice Cooper é o nome de uma das instituições artísticas mais bem sucedidas dos Estados Unidos. Como todos devem saber, esse é apenas o nome do personagem que Vincent Damon Furnier interpreta em todos os shows, junto com todos os aparatos amedrontadores e bizarros. A espetacularização do horror, que hoje é algo comum nas performances de diversos artistas por aí – como Kiss, Marilyn Manson e Rob Zombie -, teve como um dos pioneiros este senhor, que em seus incríveis 69 anos, desconversa toda vez que alguém pergunta sobre aposentadoria.

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“Como chocar as pessoas hoje em dia se com as notícias elas já estão naturalmente chocadas?”, Cooper diz em uma entrevista, demonstrando a dificuldade de fazer seu show em meio à todo o horror desse mundo caótico em que vivemos. Mas ele acha uma forma. Tanto de chocar e surpreender quanto de entreter, com ambas as partes musical e teatral dos concertos. O músico sempre focou bastante no conteúdo sonoro dos espetáculos e isso foi o que lhe colocou em posição privilegiada, conferindo certificado de autoridade à ele dentro do cenário rock americano e mundial.

Paranormal, seu novo disco, foi concebido originalmente para ser um álbum não conceitual, com histórias diferentes e focos distintos. Porém, conforme foi compondo, Cooper percebeu que as letras inevitavelmente convergiam para um ponto: características incomuns e especiais dos personagens. Temos, por exemplo, histórias como a de um transgênero tentando encontrar um lugar no mundo (“Genuine American Girl”), uma banda tendo um casual encontro com o diabo (“Dynamite Road”) e uma pessoa morta tentando se comunicar com sua namorada (faixa-título). Aliás, isso sempre fascinou Alice: o que vai além do normal e que de certa forma possui peculiaridades que ele julga interessantes e curiosas e gosta de explorar em suas histórias.

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Se as letras possuem pontos em comum, a parte musical é bem diversificada. A faixa que dá o nome ao disco abre tudo com guitarras espertas riffando e uma bateria bem tocada creditada ao Larry Mullen Jr., do U2. É interessante notar que essa faixa varia bastante de nuances, como em uma peça de teatro mesmo. Com uma abordagem bem modernosa e diferente, entra “Dead Flies”, um hard rock marcante típico do Cooper. Na sequência direta, “Fireball” surge com um tratamento diferente dando à voz do Alice, dentro da base guitarreira, com riffs que aparecem bem nos momentos certos. “Paranoiac Personality” é, como o próprio Cooper descreve, “um estudo sobre a personalidade paranóica de uma pessoa que gosta disso”. Musicalmente, possui um tom dark, assombrado, que é reforçado pelo jeito como o cantor interpreta.

“Genuine American Girl” é um rock grudento, pra cima, com levada de bateria simples, backing-vocals bem ao estilo doo-wop no refrão e vocal mais rasgado. Deve soar ótima ao vivo. “Rats” é mais acelerada e tem jeitão de rock’n’roll, sendo especialmente garageira e com sotaque sonoro do sul dos Estados Unidos. “Fallen in Love” é totalmente Rolling Stones, tanto no boogie rítmico – reforçado pela guitarra do Billy Gibbons do ZZ Top – quanto no vocal que lembra o Mick Jagger. Já “Dynamite Road” tem um estilo de vocal falado nos versos, com ideias bem interessantes nos arranjos de guitarra e bateria.

A produção foi assinada por Bob Ezrin, que já trabalha com Cooper há um bom tempo e entende como ninguém o que se passa na cabeça do cara. Ele conseguiu coordenar o processo para gerar um álbum que se situa perfeitamente em 2017, com referências e toques de modernidade, nos timbres e nos efeitos, mas sem perder a teatralidade e o quê roqueiro anos 70/80 que estão no DNA de Alice. Assim como o último disco do Kiss, Monster (2012), que mantém a veia hard rock com uma pegada contemporânea, Paranormal é um resultado bem interessante que não soará estranho aos ouvidos mais jovens de quem só está acostumado com a música que se faz atualmente.

Ezrin também sugeriu que trouxessem o baterista do U2, Larry, para o álbum. Quando começou a trabalhar nas levadas, Larry pediu as letras do álbum e disse que iria interpretá-las com as baquetas. O resultado foi uma bateria criativa e bem executada, que traduz perfeitamente para os tambores as variações de nuances que Alice impõe nos vocais. O baterista original da banda – Neal Smith – também tocou no disco, nas duas últimas faixas.

Alice Cooper segue assombrando a gente, como um bom filme de terror, usando o medo como artifício para prender nossa atenção. Depois de todos esses anos, Vincent ainda consegue interpretar seu personagem com perfeição e fazer discos bons de ouvir que inspiram fantasias malucas em nossa imaginação. Ele diz que enquanto houver pessoas querendo que ele faça música, ele fará, com o mesmo vigor. E enquanto ele continuar com discos como esse, com certeza, vai existir gente para consumir. Ou seja, um loop interessante no qual todo mundo sai ganhando no final. Vida longa ao padrinho do Shock Rock!

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1 comentário em “Alice Cooper – Paranormal (2017)

  1. Pingback: Dirty Shot – Strange Feelings (2017) | Escuta Essa!

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