blues country Resenhas Rock

Left Lane Cruiser – Claw Machine Wizard (2017)

Blues rock Nutella. não. Aqui é raiz mesmo!

Por Gabriel Sacramento

O Left Lane Cruiser é mais um duo de blues-rock-de-lenhador que venho vos apresentar. Eles são Fredrick “Joe” Evans IV na guitarra slide e voz e Pete Dio na bateria. Mas se é igual à outras centenas de bandas por aí, por que estes caras do estado de Indiana nos EUA merecem destaque com o lançamento de Claw Machine Wizard? Talvez seja porque além de respeitar bem a tradição do blues, a dupla preza pelas boas canções, que acima de qualquer estilo, é o principal fator para fazer alguém se interessar por um álbum musical.

Se as comparações com os Black Keys são inevitáveis, podemos considerar que o LLC foca mais na parte forte e rascante do blues, que os Keys costumavam fazer na década passada. Para te situar melhor, estamos falando de algo parecido com o que Dan Auerbach e Patrick Carney fizeram no Magic Potion (2008): mixagem crua, poucas camadas instrumentais e foco na agressividade rústica. Os Keys acabaram conhecendo o sucesso no meio da caminhada e o som sofreu leves mudanças. O LLC, por sua vez, chega ao seu décimo álbum sem tanto sucesso, mas com uma atitude capaz de amedrontar gente grande.

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O fuzz na guitarra da faixa-título já denuncia o tipo de blues rock cru que ouviremos ao longo do álbum. A ausência de um baixo forte quase nem é sentida, pois as guitarras se alternam em riffs e licks sensacionais, que servem de base para os vocais de Evans. “The Point is Overflowing” traz agudos rasgadíssimos e um peso consonante da bateria e guitarra. “Lay Down” é o duo com um pouco de sensibilidade pop, o que mostra que não estão totalmente alheios à pretensão comercial. É uma faixa classuda, no entanto. As coisas continuam em alto nível até o final, com canções mais fortes alternadas com momentos de descanso. Até que “Indigenous” fecha o álbum com seis minutos de mais peso, sujeira e vocais nada suaves. É como se eles desejassem, no final, reafirmar enfaticamente a sonoridade grosseira e campestre que gostam de fazer, como quem não se importa com a obrigação implícita no mundo musical de ser sempre polido, limpo, perfeitamente afinado e bem timbrado. Se eles precisarem de três minutos para falar o que querem, usarão. Se precisarem de mais, não hesitarão em criar canções longas. O mais importante é que eles mantêm o nosso interesse durante todo o play.

Claw Machine Wizard mostra que a banda continua com a mão boa para criar porradas sonoras blueseiras. Não é nenhuma novidade que grupos pequenos sejam capazes de fazer um som inversamente proporcional ao número de membros: os grandes trios da história estão aí para provar isso, assim como o The White Stripes e o Royal Blood. O que grupos como o LLC conseguem é o que músicos que tocam ao vivo mais buscam: combinação entre preenchimento sonoro e definição. O detalhe é que o preenchimento neste álbum não é alcançado por quantidades absurdas de pistas no gravador, mas por um preciso entrosamento entre Joe e Dio. A união faz a força.

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Eles também deixam claro que falta de recursos não é sinônimo de pouca qualidade. Os dois músicos são perfeitamente competentes para chegar ao som desejado e são criativos com o que têm, reforçando aquela ideia de que a criatividade brilha sob condições adversas. Sabe aquela história dos Beatles e o Sgt. Peppers, disco em que conseguiram ser inventivos ao máximo, estimulados pela intenção e pelas dificuldades com o equipamento do Abbey Road? Em Claw Machine Wizard, o LLC também conseguiu soar como um diamante precioso, bonito e vistoso, mas que precisou de um duro processo de lapidação artesanal. Ou seja, o álbum é resultado de uma equação em que pesa mais a qualidade dos profissionais do que necessariamente a qualidade dos equipamentos.

Há quem diga que sucesso e reconhecimento são consequências diretas do aspecto qualitativo. Mas essa ideia não é verificável no mundo da música, pois o que mais vemos por aí são bandas excelentes que não recebem a devida atenção por parte do público consumidor. Isso é compreensível. Mas bandas como o Left Lane Cruiser mostram que não precisam de muitos zeros no orçamento para criar discos marcantes, consistentes e coesos entre si. É um trabalho difícil e nem sempre ter o reconhecimento pode ser frustrante, mas seguem em frente, assumindo os riscos de lidar com matéria bruta e extrair daí algo bom e agradável aos ouvidos.

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