2017 Indie Metal Resenhas Rock

Chelsea Wolfe – Hiss Spun (2017)

Agressivo e amargo, sexto disco da californiana é também libertador

Por Lucas Scaliza

Chelsea Wolfe é uma mulher que sempre chegou mostrando as garras. A guitarra com afinação baixa que dá o tom em “Spun”, no primeiro segundo de Hiss Spun, sexto disco da carreira, define bem a alma pesada que norteia seu trabalho, rico em ambientação doom, distorção e tristeza. A lead guitar que acompanha os espaços escuros dessa primeira canção não se esquiva da possibilidade de dissonância, mais ou menos como o Queens Of The Stone Age na hora de criar arranjos cheios de intenção. Aliás, o ruído da distorção pode até arrefecer, mas é onipresente neste álbum de rock. “16 Psyche” é tão boa que chego a ranger os dentes em seu refrão, onde a guitarra martela acordes como um lobo mastigando sua presa.

Chelsea Wolfe quis compor um disco que falasse do péssimo estado do mundo atual. Porém, refletindo rapidamente sobre o assunto, a cantora percebeu que o mundo vem apodrecendo desde o começo. Com esse espírito trágico refletido nas suas letras e nas escolhas harmônicas, é totalmente acertada a decisão de ser tão doom e gótica quanto Abyss (2015). Se Wolfe é uma artista com influências mais amplas, dessa vez ela resolveu deixa-las de lado para que sua música fosse mesmo a trilha sonora fatalista desta era de más notícias, Brexit, crise de refugiados, Trump e pós-verdade.

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“The Culling” e “Particle Flux” começam como peças de música eletrônica underground e aos poucos você vai ganhando a dimensão de que todo aquele som ruidoso vem de uma banda de metal. A agressiva “Vex”, por sua vez, se aproxima do black metal atmosférico. Mas não importa se o mundo em Hiss Spun é engolido por um buraco negro, o vocal da californiana continua profunda e frágil, como um véu que deixa transpassar a única luz em um ambiente escuro.

Nem mesmo o folk de “Twin Fawn” sobrevive muito tempo no álbum, sendo obstruído violentamente por uma banda de timbres saturadíssimos. A canção “Two Spirit” sobrevive em sua cadência melíflua por mais tempo, mas também acaba invadida pela torrente de ruído e distorção. Troy van Leewen (QOTSA) e Aaron Turner (Old Man Gloom, Isis), os guitarristas escalados por Wolfe para ajudar no álbum, fizeram muito sound design com as seis cordas, não somente riffs e acordes barrocos.

Chelsea Wolfe vem ganhando mais notoriedade a cada álbum – ou mais adeptos, talvez, já que seu séquito de seguidores é fiel –, mas ainda é uma artista da margem. As influências de metal em seu som, cada vez maiores, não a ajuda a atingir um público mais vasto, mas têm sido usadas como uma expressão real dos sentimentos que quer pôr para fora. Identifica-se com ela quem sente o mesmo peso do mundo nos ombros, o mesmo pendor para o trágico e encontra beleza nos cenários mais desolados. Nektyr, da Demen, tem o mesmo público alvo e o mesmo background doom, embora seja uma espécie de dark ambient.

Se essa é a sua tribo ou seu coven, Hiss Spun é para você. Um disco agressivo e amargo, mas libertador.

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